Caça à direita, Parte 1, ou ‘Os Intocáveis vistos da janela de Dark Horse’

Redação
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Aurélio Zanotti - Fotos Editoria de Imagens/IA

Com todo o respeito ao editor-chefe de Notibras Wenceslau Araújo, que transformou a saída de Flávio Bolsonaro do país numa Sessão da Tarde, a comédia tem graça, mas o roteiro tem furos. Rir do fujão é fácil. Difícil é explicar quem escreveu o filme, quem dirigiu e quem ficou com a bilheteria.

Comecemos pelo relógio. Segundo a coluna de Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo, a Polícia Federal pediu a apreensão dos passaportes de Flávio sete minutos depois de o TSE confirmar o resultado da eleição. Sete minutos. O ministro Alexandre de Moraes autorizou a medida na mesma noite de domingo, em decisão sigilosa. Um dos fundamentos apresentados pela PF foi uma fala de Eduardo Bolsonaro, que defendeu que o irmão deixasse o país caso perdesse. Desde quando a opinião de um irmão vira motivo para reter o documento do outro?

Não sou só eu quem estranha. Nos bastidores, governistas se irritaram com a pressa de Moraes, e o próprio presidente Lula se disse preocupado com o discurso de perseguição que a decisão alimentaria. Quando até o vencedor acha que o juiz passou do ponto, talvez o problema não esteja apenas no perdedor.

Agora, o juiz. O mesmo ministro que decide o destino de quem carrega Bolsonaro no sobrenome é personagem do escândalo do Banco Master. Perícia da Polícia Federal apontou que um perfil identificado como “Ministro Alexandre de Moraes” editou ao menos duas vezes a minuta do contrato de R$ 131 milhões entre o banco de Daniel Vorcaro e o escritório de sua esposa, Viviane Barci de Moraes. O ministro afirma que os serviços foram prestados e declarados e que nunca julgou causas do Master. Pode ser. Mas, em setembro, Estadão, O Globo e Folha, jornais que ninguém em sã consciência chamaria de bolsonaristas, publicaram editoriais defendendo que ele deixasse o Supremo.

Entra em cena o segundo intocável. Quem decide se um ministro do STF responde ou não a processo de impeachment é o presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Mensagens extraídas pela PF do celular de Vorcaro, reveladas pela Veja e confirmadas pela Folha, mostram Alcolumbre chamando o banqueiro de “meu amor” e de irmão para a vida toda. Em maio, o mesmo Alcolumbre segurou a CPI do Master, alegando que o assunto não era prioridade. Ele nega irregularidades, promete processar quem o acusa e não foi alvo de operação policial. Ainda assim, só até o início de setembro foram protocolados 55 novos pedidos de impeachment contra Moraes, e Alcolumbre já avisou a interlocutores que não pretende pautar nenhum.

Dizem que a direita “ameaça” o Supremo com impeachment. Ameaça? Em outubro, o eleitor deu à direita a maioria do Senado; só o PL terá 28 das 81 cadeiras a partir de 2027. O impeachment de ministro está na Constituição. Usá-lo é instrumento democrático, não golpe. Afronta à vontade das urnas é deixar dezenas de pedidos dormindo na mesa de um presidente do Senado que trocava juras de fraternidade com o banqueiro que pagava o escritório da família do ministro.

Que fique claro: não aplaudo saída pela porta dos fundos, nem quem se recusa a reconhecer o resultado das urnas. Flávio é investigado e terá de responder. Mas responder diante de quem? De um juiz cuja imparcialidade os maiores jornais do país puseram em dúvida, sob a guarda de um Senado cujo presidente blinda esse mesmo juiz? Perseguição não precisa de prova cabal para existir. Basta que o árbitro seja também jogador.

O editor-chefe sugeriu trocar Dark Horse por Esqueceram de Mim 2. Proponho outro título, mais fiel ao elenco de Brasília: Os Intocáveis. Ali, ao menos, o mocinho e o bandido tinham lados definidos. Aqui, o juiz, o senador e o banqueiro dividem o mesmo camarote.

Eis o elenco. No papel principal, o ministro de mil togas, que investiga, acusa e julga no mesmo fôlego, e que, segundo a perícia da Polícia Federal, ainda arrumou tempo para revisar o contrato milionário entre o escritório da família e o banqueiro do Master. Como coadjuvante, o senador-porteiro, guardião zeloso da gaveta mais famosa da República. Ali dormem, em sono profundo, dezenas de pedidos de impeachment, enquanto o dono da chave trocava juras de irmandade eterna com o mesmo banqueiro. Na figuração, a polícia relâmpago, capaz de pedir a apreensão de um passaporte em sete minutos, recorde que nenhum guichê de repartição pública jamais sonhou alcançar. E, no fundo do palco, o réu de sempre: o sobrenome.

Não importa o que se faça, o que se diga ou o que o irmão diga por ele; a sentença parece escrita antes do processo. Isso tem nome. Chama-se perseguição seletiva, sob medida, cronometrada e com carimbo oficial. A pergunta que fica para quem ri da fuga é simples: onde não se enxerga perseguição? Talvez apenas onde ninguém quer olhar.

Resumo da ópera: o banqueiro investigado conversava com o juiz e com o senador. O juiz julga o adversário político. O senador guarda o juiz na gaveta. E o povo assiste da plateia.

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Aurélio Zanotti é consultor em gestão e estratégia

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