A madrugada de Brasília tem seus próprios segredos, com alguns caminhando pelas superquadras desertas e outros se escondendo entre as árvores retorcidas do Cerrado. Há também os que dormem sob os postes de luz amarelada, e aqueles que, sem pedir licença, entram pelas janelas dos apartamentos. Foi assim que ela apareceu, negra como uma noite sem lua e silenciosa como uma oração esquecida, para pousar na parede branca e ficar imóvel, como se aguardasse alguém.
Era uma mariposa, dessas que o imaginário popular batizou de borboleta-bruxa. Grande, misteriosa, com asas que pareciam recortadas de um pedaço da escuridão. Não batia à porta, não anunciava sua chegada; simplesmente estava ali, contrastando com a brancura da parede, como uma mancha de tinta deixada pelo pincel de algum artista distraído.
Olhei para ela que, naturalmente, não demonstrou interesse em mim. Talvez porque as mariposas conheçam segredos que os homens jamais compreenderão, ou porque, diferentemente de nós, não desperdicem a madrugada com perguntas cujas respostas o amanhecer costuma levar embora.
Lembrei-me das histórias contadas pelas avós nordestinas. Diz a crença que quando uma borboleta negra entrava em casa, era sinal de presságio. Para uns, anunciava a morte; para outros, a visita de uma alma querida, como se atravessassem o invisível para matar saudades dos vivos. Havia ainda quem enxergasse na visitante um aviso de transformação, mudança de destino ou simples lembrança de que a vida guarda mistérios que a ciência não tem obrigação de desvendar.
No Nordeste, onde o sobrenatural costuma sentar-se à mesa com o café recém-passado, ninguém brincava com essas aparições. As mulheres faziam o sinal da cruz, os homens fingiam coragem e as crianças, com os olhos arregalados, aprendiam que o mundo era muito maior do que aquilo que se podia tocar.
Brasília, entretanto, parece ter perdido a intimidade com seus fantasmas. Aqui, os presságios costumam vestir ternos, ocupar gabinetes e circular pelos corredores do poder, onde algumas assombrações têm motorista, assessores e cartão corporativo, e outras dispensam asas porque aprenderam a voar com dinheiro público. A borboleta-bruxa, diante de tamanha concorrência, não passaria de uma inocente turista noturna.
Mas essa visitante, em especial, tinha algo diferente. Continuava imóvel, desenhando sua silhueta escura sobre a parede clara. Parecia observar o tempo, esse velho feiticeiro que transforma juventude em lembrança, amor em saudade e promessas em poeira. Pensei nas pessoas que partiram, nos amigos que a vida espalhou pelos quatro cantos do mundo, nos abraços adiados e nas palavras que jamais foram pronunciadas.
Pensei comigo mesmo: e se essa mariposa fosse uma mensageira? Não necessariamente da morte, como pregavam as superstições antigas. Talvez fosse apenas uma embaixadora da memória, trazendo nas asas o perfume de alguma ausência ou, que sabe, uma lembrança de quem já não pode telefonar, bater à porta ou sentar-se conosco para conversar sobre as pequenas tragédias e as grandes alegrias da existência.
A ciência certamente teria uma explicação menos poética. Diria que mariposas são atraídas pela luz, procuram abrigo e desempenham seu papel na natureza. A definição estaria correta, porque a razão tem dessas virtudes. É capaz de explicar o fenômeno, identificar a espécie, descrever o comportamento, mas nem sempre consegue traduzir o arrepio que percorre a espinha quando uma criatura da noite aparece justamente no instante em que estamos conversando com nossas lembranças.
Lá fora, Brasília dormia. Dava para sentir o vento soprando discretamente entre os prédios, acompanhar com os olhos um automóvel solitário rompendo o silêncio de alguma avenida, enquanto a cidade, tão barulhenta durante o dia, parecia reconciliada com seus próprios pecados.
A mariposa, porém, permanecia na parede. Não tentei espantá-la, tampouco procurei descobrir se trazia sorte, azar, vida ou morte. Há visitas que merecem respeito simplesmente porque chegam sem fazer exigências, e há silêncios que dizem mais do que discursos inteiros. Quem sabe ‘minha’ borboleta-bruxa tivesse atravessado jardins, copas de árvores e corredores de vento apenas para encontrar repouso, ou apenas estivesse cansada da sua única missão de sobreviver até o amanhecer.
Ou talvez, quem sabe, tivesse vindo lembrar que nem tudo precisa ser explicado. Porque, afinal, envelhecer também é aprender a conviver com o inexplicável, é descobrir que a saudade possui asas, que a memória não respeita relógios e que certas presenças, mesmo silenciosas, iluminam os cantos mais escuros da alma.
Quando voltei a olhar, ela continuava ali, negra, majestosa, quase solene. A parede branca parecia uma página em branco, e a mariposa, uma palavra escrita por mãos invisíveis. Não sei quanto tempo permaneceu ou se desapareceu antes que o primeiro raio de sol alcançasse a janela. É mesmo provável que tenha deixado apenas a lembrança de sua visita, como fazem tantas pessoas que atravessam nossa vida.
Contudo, uma coisa que aprendi em mais uma madrugada brasiliense, é que nem toda criatura vestida de negro anuncia tristeza. Algumas chegam apenas para nos ensinar que a beleza também mora na escuridão; e se, por acaso, essa mariposa fosse mesmo uma mensageira do além, espero que tenha levado de volta um recado aos que partiram, para dizer que seguimos por aqui, com saudade, algumas rugas a mais e muitas histórias por contar. Quanto aos vivos, que aprendam a olhar para uma parede branca antes de transformá-la em muro. Porque, às vezes, basta uma borboleta negra para nos lembrar que a vida é um mistério grande demais para caber na claridade do dia.
Já ao vizinho chato que reclama do aroma do cigarro, resta dizer que, graças a ele, encontrei inspiração para escrever mais uma crônica. Coincidência ou não, jogando sobre as flores do jardim que ele diz ter criado, a fumaça de mais uma tragada. Sobre os cinco mil reais, gastarei comprando maços de Kent.
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José Seabra é CEO fundador de Notibras

