Governo precisa de ideias e propostas para construir um Brasil para o povo

Redação
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Mathuzalém Júnior - Foto Acervo Pessoal

Depois de perderem o leite condensado, até quando os patriotas sem pátria permanecerão chorando o leite derramado? A vida continua, a vaca morreu, o passado azedou, mas o touro indomável continua lúcido e, como um gato, pronto para comer pelas beiradas o mingau desnatado feito com o caldo entornado. Por que chorar se o leite já está derramado? Por que lamentar uma grande chance perdida e um futuro à beira da condenação? Se perderam é porque produziram resultados pífios.

Portanto, se querem realmente se manter no jogo, limpem urgentemente o chão para evitar novas moscas lazarentas e tentem encher outro copo. Tenham mais cuidado da próxima vez. Melhor do que fugir é se arrepender, acertar os ponteiros com o tempo e lutar internamente para abandonar a rebeldia, a soberba e o ódio. Quem debochou, odiou, xingou, ameaçou e não levou, recebeu o que mereceu. Por isso, mais importante do que chorar pelo leite que derramou, é se apegar ao aprendizado gerado pelo leite perdido.

Laticínios metafóricos à parte, o recado a ser dado é simples: ou abrimos os olhos, clareamos a mente e saibamos manter o azul do céu, ou continuaremos tingindo nosso chão de vermelho. Tudo por conta da estupidez de uma fanática e vigarista polarização que certamente nos levará vexaminosamente a lugar nenhum. Os extraterrestres não virão para salvar mitos da degola, tampouco da prisão, Donald Trump agora tem menos poder e não há hipótese de Deus descer à Terra para tirar alguém do poder. Então, por que insistir com levantes antidemocráticos?

Por uma diferença significativa, o povo disse não ao fascismo, à intolerância, à arrogância, aos preconceitos e à perda de direitos conquistados. Os que perderam talvez levem dias, semanas ou meses para digerir o desamor, a raiva, o ressentimento e o rancor. Como nem nós somos eternos, tudo isso um dia passará. Temos um presidente reeleito para seu quarto mandato e promessas de pacificação logo após a subida da rampa palaciana. É a partir daí que teremos de raciocinar sobre a construção do Brasil que queremos.

A união de ideias e o conjunto de propostas suprapartidárias podem ser os primeiros passos para amenizar o desgaste eleitoral iniciado em 2018. Como saímos da encruzilhada política, nos resta os caminhos do amor e do perdão e da dor e da lamentação. Qual seguir? Como votei na democracia, obviamente que minha escolha é pela trilha da paz, da compreensão, da harmonia e da boa convivência entre os diferentes. Independentemente de cores, classe, ideologias e conceitos filosóficos, está na hora de pensarmos em um único Brasil.

Ainda que se mantenha incubada, a grande descoberta dessas eleições é que os conservadores são soberanos e não precisam de escada radical e raivosa para sobreviver no espectro político do Brasil. Pelo contrário. Sem vinculação a seitas políticas, a direita provavelmente voltará a seus dias de glória. Quanto ao povo, é bom que fiquemos atentos ao ir e vir dos deputados e senadores eleitos na esteira da ingenuidade de milhões de eleitores para, antecipadamente, azucrinar a gestão do presidente que eles fizeram de tudo para não eleger.

Como não são eles que governam, o futuro do Brasil está nas mãos vigilantes dos que, fortemente unidos por um propósito de consolidação democrática, votaram contra aqueles que sonhavam exclusivamente com a possibilidade de se transformar em estátuas de contemplação. Sobre o leite derramado, todos temos o direito de lamentar a perda. Entretanto, não podemos deixá-lo azedar em nossas vidas. E, se azedar, façamos doce e adocemos a caminhada ao longo desses próximos quatro anos.

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Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

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