Amar é um exercício de aparências, com recheio de compreensão verdadeira

Redação
Redação
4 minutos de leitura
Ray Cunha - Foto Editoria de Imagens/IA

Às vezes, Ricardo André, presidente do Instituto Fernando Hessen e coordenador dos trabalhos terapêuticos voluntários no Centro Comunitário da Candangolândia, aos sábados de manhã, antes de começarmos as atividades, pede-me para conduzir as orações. Meu discurso é, sempre, curto. Basicamente, agradeço, em nome de todos, a oportunidade que os pacientes nos dão de nos exercitarmos no amor.

Para o psicólogo Erich Fromm o amor deve ser aprendido: “Se quisermos aprender como se ama, devemos proceder do mesmo modo por que agiríamos se quiséssemos aprender qualquer outra arte, seja a música, a pintura, a carpintaria, ou a arte da medicina ou da engenharia”. Para ele, “o amor é uma atividade, e não um afeto passivo; é um erguimento, e não uma queda. De modo mais geral, o caráter ativo do amor pode ser descrito afirmando-se que o amor, antes de tudo, consiste em dar, e não em receber”.

Para o filósofo Massaharu Taniguchi o amor não prende, solta. No amor não há apego. No amor não há dono. Eu te amo, querida; não sou teu dono, não quero ser teu dono. És dona de si mesma. E se me amas, também, estás, de certa forma, amalgamada a mim.

E o psiquiatra Carl Gustav Jung dizia que “o amor é como Deus: ambos só se oferecem a seus serviçais mais corajosos”. Em outras palavras: é preciso ter coragem, disposição, para amar.

A raposa explicou ao Pequeno Príncipe o que é amar. É cativar, criar laços, dedicar tempo, paciência e afeto a alguém, que se torna, então, único no mundo. Um, entre 8,5 bilhões de pessoas. E se eu amo alguém, sei distingui-lo entre todas as pessoas do mundo.

– Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas – disse a raposa.

Cativar é estabelecer uma conexão verdadeira. Tornar alguém insubstituível. A raposa ensinou também ao Pequeno Príncipe que é importante a paciência no exercício do amor, e lhe explicou que isso exige tempo, pequenos rituais, como sentar-se na relva um pouco mais perto do outro a cada dia, sem pressa, inicialmente em silêncio, pois o silêncio diz muito, às vezes.

Quando cativamos, assumimos uma responsabilidade afetiva, o compromisso de cuidar, zelar e respeitar essa relação. É preciso ter coragem, disposição, para amar, lembre-se.

Também a raposa ensinou ao Pequeno Príncipe o segredo do coração: “Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos” – ela disse. O Pequeno Príncipe compreendeu, então, que o verdadeiro amor não está nas aparências, mas na dedicação ao outro.

Quando o poeta Fernando Canto partiu, Macapá ficou imersa em perfume. Eram os jasmineiros chorando. Eu senti o perfume, aqui, em Brasília, com a antena do meu coração.

Sinto que o amor é o que nos fortalece e nos mantém vivos nos momentos de tristeza, de desespero, quando nossa alma berra de dor. Por isso, acho que o amor está muito ligado ao belo, à luz. O meu amor, ao meu lado, na cama, dorme, consciente de que estou, ali, para protegê-la, na travessia da madrugada.

Amar é um exercício. É um compromisso com o mistério, pois o que é a vida senão um mistério, emoção? Haverá obra de arte mais emocionante do que mulher muito linda? Sim, nua! Cheirando a púbis! E mais bela do que isso? Grávida! Amamentando! Mais belo só crianças rindo! Luz se eternizando!

Compartilhar
Nenhum comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *