Administrador entra como estrategista, vira gerente e passa a viver no limbo

Redação
Redação
6 minutos de leitura
Aurélio Zanotti - Foto Editoria de Imagens/IA

Boa parte das empresas brasileiras é administrada pelos próprios sócios. São médicos, engenheiros, advogados, produtores rurais e comerciantes que construíram o negócio com competência técnica e muito trabalho. Eles captam clientes, fecham contratos, cuidam da operação e, não raro, ainda conferem o caixa no fim do dia. O comprometimento é inegável. O problema é o que fica de fora dessa rotina: quem está pensando no futuro da empresa?

Muitos sócios, em algum momento, percebem que precisam de ajuda e contratam um administrador. É uma decisão acertada, mas que costuma vir acompanhada de um equívoco silencioso. O profissional é contratado para planejar e acaba absorvido pelo dia a dia. Resolve escala de funcionários, cobra fornecedor, confere planilha, apaga incêndio. Em poucos meses, o estrategista virou gerente. Em vez de desenhar o caminho, passa a administrar a rotina.

É o que chamo de limbo do gerenciamento: uma função tática, às vezes operacional, ocupada por alguém que foi formado para o estratégico.

Planejar não é burocracia
O administrador tem uma habilidade que raramente aparece na formação de outras profissões: transformar vontade em plano. O sócio chega com um desejo, como abrir uma nova unidade, lançar um serviço ou entrar em outro mercado. O administrador devolve perguntas que têm resposta. Quanto custa? Quanto retorna? Em quanto tempo? Com que risco? Com que estrutura?

Essa conversa acontece antes do investimento, e não depois do prejuízo. É a diferença entre uma decisão tomada pelo entusiasmo e uma decisão tomada com base em viabilidade.

Quem enxerga o todo
Em sociedades, cada sócio tende a enxergar o negócio pela lente da própria profissão. O médico vê o atendimento, o engenheiro vê a obra, o vendedor vê o contrato. Todos estão certos sobre a sua parte. Mas os projetos raramente fracassam por um problema técnico isolado. Fracassam porque uma área avançou e a outra não acompanhou: o comercial vendeu mais do que a operação conseguia entregar, a expansão começou sem caixa para sustentá-la, a equipe cresceu sem processos que a organizassem.

O administrador é treinado para integrar finanças, pessoas, processos, mercado e governança. É ele quem percebe que a peça que falta não é a que todos estão olhando.

Resultado se define antes de começar
Planejar é, sobretudo, decidir como o sucesso será medido. Indicadores, metas, marcos e prazos não são enfeites de apresentação. São o que permite saber, no meio do caminho, se o projeto está dando certo. Sem eles, a empresa trabalha muito, todos se esforçam e ninguém consegue dizer se o esforço está gerando resultado.

O mesmo vale para os riscos. O sócio que vende e opera vive, por natureza, no curto prazo. Cabe ao administrador estratégico perguntar “e se não der certo?” antes que aconteça. Quanto tempo o caixa aguenta um atraso? O que acontece se o principal cliente sair? Que contrato protege a empresa? Gestão de risco não é pessimismo. É o que dá ao empreendedor segurança para ousar.

Da reunião à segunda-feira de manhã
O erro mais comum nas empresas não é a falta de planejamento. É o plano que fica na gaveta. Toda boa decisão estratégica precisa ser desdobrada em cronograma, responsáveis, orçamento e rotina de acompanhamento, com correção de rota sempre que os números mostrarem desvio. O administrador é a ponte entre o que se decide na reunião de sócios e o que efetivamente acontece na segunda-feira de manhã.

Há ainda um papel pouco lembrado: o da neutralidade. Divergências entre sócios são naturais e, muitas vezes, travam decisões importantes. Um profissional com dados na mão, sem disputa de participação societária, ajuda a transformar a diferença de opinião em escolha técnica. Isso protege o negócio e a própria relação entre os sócios.

Como sair do limbo
Os sinais de que o administrador está subutilizado são claros. Ele não participa das reuniões em que se decide investimento, expansão ou preço. Recebe as decisões prontas apenas para executá-las. Passa a maior parte do tempo resolvendo problemas, e não evitando que aconteçam. E não responde por um plano com metas de resultado, apenas por tarefas.

A correção passa por um mandato estratégico explícito: assento nas decisões dos sócios, ainda que sem voto; responsabilidade por metas e indicadores, e não só por atividades; e autonomia para estruturar processos e equipe, de forma que o operacional seja assumido por outras pessoas.

Um teste simples ajuda a fazer o diagnóstico. Se o administrador deixasse a empresa amanhã, o que se perderia: um executor de tarefas ou a capacidade de planejar o futuro do negócio? Se a resposta for a primeira, a empresa está pagando por um estrategista e usando um gerente.

O sócio sabe fazer o negócio acontecer hoje, e isso tem enorme valor. O administrador, quando bem posicionado, garante que ele continue acontecendo daqui a cinco anos, com lucro, controle e direção. Uma coisa não substitui a outra. Juntas, fazem a diferença entre uma empresa que cresce e uma empresa que apenas se mantém ocupada.

………..

Aurélio Zanotti é consultor em gestão e planejamento

Compartilhar
Nenhum comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *