Economia com o governo Lula 3 apresenta retrato de um Brasil que respira

Redação
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@Klaus Russo - Foto de Arquivo

O Brasil chega ao fim do terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva com o menor desemprego de sua série histórica, a bolsa em recorde e um acordo comercial com a Europa assinado após 25 anos — e com a dívida pública nove pontos de PIB acima da que recebeu. Os números, de IBGE, Banco Central, Tesouro Nacional e B3, desenham um governo que cresceu e empregou em um cenário externo adverso, mas que carrega uma conta de juros de R$ 1,18 trilhão em doze meses.

A comparação com o mandato anterior exige um ponto de partida. Jair Bolsonaro tomou posse em 2019 com a Selic em 6,5%, inflação abaixo de 4% e um mundo de juros baixos; encontrou, porém, 13,4 milhões de desempregados e uma economia que crescia menos de 1,5% ao ano. Lula assumiu em 2023 com desemprego já em 7,9% e dívida bruta em 73,5% do PIB, a menor desde 2017, mas em meio à inflação global mais alta em quatro décadas, juros elevados nos Estados Unidos e, a partir de 2025, uma guerra tarifária aberta por Washington contra o país.

Esta reportagem reúne os indicadores de 2023 a outubro de 2026, o histórico das mudanças na legislação trabalhista e nas parcerias internacionais do governo anterior, e o debate sobre a origem do aumento da dívida.

O PIB cresceu 3,2% em 2023, 3,4% em 2024 e 2,3% em 2025, quando somou R$ 12,7 trilhões, segundo o IBGE. Em janeiro de 2024, o Boletim Focus projetava apenas 1,6% para aquele ano. Entre o primeiro trimestre de 2023 e o primeiro de 2025, o crescimento médio foi de 3,27% ao ano, acima da média de todo o governo anterior, segundo levantamento do economista Luiz Carlos Bresser Pereira.

O mercado de trabalho é o dado mais forte do período. A taxa de desemprego fechou 2025 em 5,1%, melhor resultado desde o início da série da Pnad Contínua, em 2012, e recuou a 5,3% no trimestre encerrado em julho de 2026, mínima para o período. No governo Bolsonaro, a média foi de 12,05%. A inflação medida pelo IPCA terminou 2025 em 4,26%, a menor desde 2018, contra média de 6,14% entre 2019 e 2022.

O ano de 2026 é de moderação. O PIB cresceu 0,5% no segundo trimestre, após 1,1% no primeiro, e o consumo das famílias recuou 0,4%. Na ata de setembro, o Copom afirmou que a atividade “manteve trajetória de moderação” e cortou a Selic de 14% para 13,75%, após o pico de 15% em 2025. A inflação projetada para o ano, de 5,3%, está acima da meta de 3%.
O investimento estrangeiro direto somou US$ 133 bilhões no biênio 2023-2024, o maior valor já registrado, e US$ 89,3 bilhões nos doze meses até junho de 2026 (3,58% do PIB). O Brasil voltou ao grupo das dez maiores economias do FMI em 2023, na 9ª posição, após ocupar a 11ª em 2022.

A primeira medida institucional do governo Bolsonaro, em 1º de janeiro de 2019, foi extinguir o Ministério do Trabalho, criado em 1930, e transformá-lo em secretaria especial dentro do Ministério da Economia. Lula o recriou, como Ministério do Trabalho e Emprego, no primeiro dia do terceiro mandato.

Entre 2019 e 2022, a regulação do trabalho foi alterada sobretudo por medida provisória, decreto e portaria:

* MP 905/2019 (“Contrato Verde e Amarelo”): reduzia encargos, liberava trabalho aos domingos e previa contribuição previdenciária sobre o seguro-desemprego. Caducou em abril de 2020 sem votação.

* Revisão das Normas Regulamentadoras: dezenas de regras de saúde e segurança foram enxugadas ou revogadas, entre elas a NR-12, sobre máquinas e equipamentos, sob o argumento de desburocratização.

* Portaria 620/2021: proibia o empregador de exigir comprovante de vacinação; foi suspensa pelo Supremo Tribunal Federal.

* Fiscalização: o quadro de auditores-fiscais do trabalho caiu ao menor nível em décadas e o orçamento de combate ao trabalho análogo à escravidão foi reduzido em anos sucessivos.

A reforma trabalhista de 2017, anterior a Bolsonaro, é frequentemente apontada como origem da queda do desemprego. Os dados não confirmam. Dois anos após a lei, no primeiro trimestre de 2019, o desemprego estava em 12,7%, com 13,4 milhões de pessoas, e a informalidade superava 41%. O efeito mensurável foi sobre a Justiça do Trabalho: o número de novas ações caiu cerca de um terço em 2018, com a sucumbência recíproca e a cobrança de honorários periciais de beneficiários da justiça gratuita — regra que o STF afastou em 2021.

No terceiro mandato, o governo recompôs o concurso de auditores, retomou a política de valorização real do salário mínimo (R$ 1.621 em 2026, ante R$ 1.518 em 2025) e manteve o Bolsa Família em R$ 158,6 bilhões, para 19,9 milhões de famílias.

Em 17 de janeiro de 2026, em Assunção, União Europeia e Mercosul assinaram o Acordo de Parceria e o Acordo Comercial Interino, encerrando 25 anos de negociação. A Delegação da UE no Brasil atribuiu à presidência brasileira do Mercosul, no segundo semestre de 2025, papel decisivo no desfecho. O acordo havia sido concluído tecnicamente em junho de 2019, mas travou nos anos seguintes: Parlamento Europeu, França e Alemanha condicionaram a ratificação ao controle do desmatamento, e Noruega e Alemanha suspenderam repasses ao Fundo Amazônia em 2019. A assinatura foi adiada uma última vez em dezembro de 2025 por resistência de França e Itália; Lula não compareceu à cerimônia, representado pelo chanceler Mauro Vieira.

Com a China, maior parceiro comercial do Brasil desde 2009 e responsável por mais da metade do superávit comercial, a relação foi elevada ao status de Parceria Estratégica Global. Foram 15 acordos de Estado na visita de Lula a Pequim em abril de 2023, 37 na visita de Xi Jinping a Brasília em novembro de 2024 e 20 na nova viagem de Lula em maio de 2025, com foco em reindustrialização e transição energética. No governo anterior, declarações de ministros e familiares do presidente haviam motivado protestos formais de Pequim.

Com os Estados Unidos, o quadro é de conflito. Em 9 de julho de 2025, Donald Trump anunciou tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, a maior aplicada a qualquer país, em vigor desde 6 de agosto, com justificativas políticas e isenções setoriais. A medida alcança 35,9% do que o Brasil vende aos americanos, cerca de 4% das exportações totais; a CNI estimou perda de R$ 52 bilhões e 110 mil empregos. O governo brasileiro optou por não retaliar e manteve a negociação técnica.

Segundo o ex-ministro Fernando Haddad, os EUA já responderam por 25% das exportações brasileiras e hoje respondem por 12%.

O Ibovespa renovou sua máxima histórica 32 vezes em 2025 e superou pela primeira vez os 180 mil pontos em 27 de janeiro de 2026. Em 15 de abril, aos 199.232 pontos, bateu o recorde real — corrigido pela inflação — que vigorava desde maio de 2008, e a B3 registrou o maior volume em cinco anos, R$ 120 bilhões em um único pregão. O volume médio diário no primeiro trimestre foi de R$ 24,9 bilhões, com investidores estrangeiros respondendo por 54% do fluxo em ETFs.

Em 5 de outubro de 2026, primeiro pregão após o primeiro turno das eleições, o índice subiu 7,70%, para 206.911 pontos, maior alta diária desde 2020, com máxima intradiária de 209.605 pontos, giro de R$ 103,3 bilhões e dólar a R$ 5,00. Analistas atribuíram o movimento à expectativa de uma política econômica mais favorável, condicionada à credibilidade fiscal. Em dólar, o índice ainda estava 11,9% abaixo do recorde de 2008 em abril.

A dívida
A dívida bruta do governo geral passou de 73,5% do PIB em dezembro de 2022 para 82,9% em agosto de 2026, ou R$ 11,1 trilhões, segundo o Banco Central. É o único indicador em que o governo anterior exibe número melhor: entre 2019 e 2022, o endividamento caiu de 75,3% para 73,5%, com superávit primário de R$ 126 bilhões no último ano.

A decomposição do Banco Central mostra que o motor da alta é a conta de juros, não o gasto. Só em agosto de 2026, os juros nominais adicionaram 0,8 ponto à dívida, contra 0,1 ponto do câmbio, enquanto o crescimento do PIB nominal abateu 0,5 ponto. O déficit primário — a diferença entre receita e despesa, sem juros — ficou entre 0,4% e 0,6% do PIB em 2024, 2025 e 2026. O de 2023, de 2,3%, incluiu R$ 92 bilhões de precatórios represados por emenda constitucional em 2021-2022 e pagos de uma vez. O investimento federal é residual: R$ 80 bilhões no Orçamento de 2026, menos de 1% do PIB, dos quais R$ 52,9 bilhões no Novo PAC.

Os juros incidem sobre um estoque acumulado em décadas. A dívida bruta estava em cerca de 56% do PIB em 2014, chegou a 70% após a recessão de 2015-2016 e saltou 12,5 pontos em 2020, para 86,9%, com a pandemia. Para rolar aquela dívida, o Tesouro encurtou prazos e ampliou a fatia de títulos pós-fixados; cerca de metade do estoque é hoje atrelada à Selic, de modo que cada decisão do Copom reprecifica a dívida inteira. Quando a Selic chegou a 15% em 2025, a conta de juros subiu de 7,6% para 8,9% do PIB em um ano.

O governo atual tem parte na trajetória. A PEC da Transição acrescentou despesa permanente ao orçamento de 2023, a política de ganho real do salário mínimo eleva automaticamente Previdência e benefícios assistenciais, e a meta de déficit zero de 2024 foi flexibilizada. O pacote fiscal de novembro de 2024 foi considerado insuficiente pelo mercado, o dólar superou R$ 6 e o Banco Central — presidido desde 2025 por indicado de Lula — levou a Selic de 10,5% a 15%. A meta de 2026 é superávit de 0,25% do PIB; até agosto, o Governo Central acumulava déficit de R$ 94,9 bilhões. Economistas ouvidos pelo Estadão/Broadcast projetam dívida de 83,4% do PIB no fim de 2026 e 90,4% em 2028, e estimam que a estabilização exigiria superávit primário de 1,5% a 2% do PIB.

O Orçamento de 2026 limita a despesa primária a R$ 2,428 trilhões, dos quais R$ 2,374 trilhões são obrigatórios: Previdência (R$ 1,11 trilhão), pessoal (R$ 489,5 bilhões), saúde (R$ 245,5 bilhões), Bolsa Família (R$ 158,6 bilhões) e emendas impositivas (R$ 40,8 bilhões). O arcabouço fiscal permite crescimento real da despesa de até 70% da variação da receita, entre 0,6% e 2,5% ao ano.

O que fica em aberto
O balanço do terceiro mandato opõe dois conjuntos de números que não se anulam. De um lado, crescimento médio superior ao do governo anterior, desemprego na mínima histórica, inflação de 4,26% em 2025, recorde real na bolsa e a reconstrução das parcerias com Europa e China. De outro, uma dívida que subiu 9,4 pontos de PIB, movida sobretudo por juros sobre um estoque herdado, mas sustentada por déficits que o próprio governo escolheu não zerar.

Três questões decidirão a leitura final. A primeira é se a desaceleração de 2026 — PIB de 1,8%, inflação acima da meta — é um ajuste cíclico ou o esgotamento do modelo de crescimento por consumo. A segunda é se o tarifaço americano será revertido por negociação ou absorvido pela diversificação para China e Europa. A terceira, e mais pesada, é fiscal: sem superávit primário de 1,5% a 2% do PIB, a dívida caminha para 90% em 2028, e os juros que hoje consomem 8,9% do PIB continuarão a crescer independentemente de quem governe.

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