Exército simbólico nos livra de sermos governados pelos votos dos outros

Redação
Redação
5 minutos de leitura
Armando Cardoso - Foto Rafa Neddermeyer

Fazendo minhas as sábias palavras do filósofo alemão Arthur Schopenhauer, os primeiros 40 anos de nossas vidas fornecem o texto. O comentário fica por conta dos 30 anos seguintes. Considerando que estou no limite da realização de todos os desejos da lista de Ano Novo, acho que desaprendi a votar. Na verdade, tenho certeza, pois, tão logo anunciado o resultado, descobri que, ainda que mantenha um mínimo de inteligência, acabei votando no sentido oposto ao da maioria que pensa que sabia pensar.

Como aprendi que, mesmo errado, os povos e as povas estão absolutamente certos, preferi segui-los de olhos fechados. Ou seja, optei por não ouvir o que queriam me obrigar a fazer. E por que não fi-lo? Porque não qui-lo! Simples assim. Embora essencial para uma leva de políticos inescrupulosos, a mente encarcerada de parte ou da totalidade da população gera tensões, conflitos e dissabores muito comuns entre os cidadãos, normalmente distinguidos pela produtividade intelectual e pela inutilidade eleitoral. Foi assim no primeiro turno das eleições de 2026.

Como ocupamos o mesmo ambiente político-administrativo, cada um de nós, independentemente da capacidade lógica de raciocínio, acaba reduzido a um mero espectador de seres dominadores e dominantes. É o preço da convivência obrigatória com o modernismo da sociedade pluralizada, mas submissamente unificada quando é obrigada a optar entre o voto abusivamente determinado por pessoas ou lideranças de fora e o estresse e a perturbação de escolher sem convicção. Felizmente, a ordem mudou de lado no segundo turno.

Olhando por esse lado, a felicidade real não é realizar todos os seus desejos da lista de Ano Novo, mas sim agir de forma coerente com a vida que o fulano e o ciclano escolheram levar. Em resumo: mais do que fazer o que dá na telha, o segredo é achar significado naquilo que se está fazendo. Talvez seja essa uma das razões pelas quais os que votaram a pedido não imaginaram que, associado ao Centrão, o PL se transformaria em partido único do Brasil. A princípio, coisa de somenos importância para quem não está nem aí para a coletividade.

Com base em um provérbio chinês, é fácil distinguir entre os brasileiros aqueles que querem a felicidade imediata, de celebração comunitária e a de longa duração. Conforme o simbolismo do provérbio, a felicidade de uma semana é sinônimo de casamento, enquanto a de um mês representa o sacrifício de um porco. Já a da vida inteira está contida no cultivo de um jardim. O que o provérbio realmente quer dizer com cada exemplo é simples e tem tudo a ver com nossas decisões políticas. O segundo turno eleitoral devolveu o povo à normalidade.

Obviamente que casar gera uma profunda e acentuada felicidade, que é concentrada no período inicial de adaptação intensa, algo como, alegoricamente, uma semana. Em um contexto de fartura e de celebração com os parceiros eleitores e eleitos, matar um porco rende uma satisfação um pouco mais longa, o equivalente a um mês de festa e boa mesa compartilhada. Plantar um jardim exige cuidado contínuo: regar, podar, esperar a estação certa. A recompensa não vem de uma vez, ela se renova a cada temporada, o que a torna a fonte de felicidade mais duradoura das três. Seria o Lula 4? Para a maioria, sim.

Resumindo, prazeres intensos e pontuais tendem a se dissipar rapidamente. As boas escolhas perenizam e mantêm acesa a chama da fidelidade, isto é, aquele bom candidato será o nosso candidato em tantas eleições quantas ele se candidatar. Ratificando meu voto no sentido oposto àqueles que acham que sabiam pensar, hoje tenho certeza de que não corro mais o risco de ser governado pelo voto dos outros. Ou seja, graças a um simbólico, sereno, forte e unido exército, não sou refém do voto alheio.

………

Armando Cardoso é presidente do Conselho Editorial de Notibras

Compartilhar
Nenhum comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *