A noite de estreia

Eduardo Martínez
3 minutos de leitura
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Isolada. Isolda se sentia isolada desde que o câncer lhe arrancara um seio. Afastou-se, talvez por culpa, talvez envergonhada, de familiares, amigos, conhecidos. Sobraram-lhe apenas os conflitos internos que travava especialmente durante as insônias.

Certa feita, de volta do trabalho, Isolda caminhava alheia aos sonhos da rua quando murmurinhos chamaram a sua atenção. Virou o rosto e descobriu um boteco. Pela fachada, constatou que aquele estabelecimento estava por ali há tempos: Bar do Bosco — Aqui o freguês (quase) sempre tem razão desde 1983.

Um estranho sentimento se fez presente. Quis se enturmar. Aquela gente lhe pareceu flertar com a felicidade. A cerveja? O samba? Tantos sorrisos e até algumas gargalhadas que ecoavam.

Abriu a porta do quarto e sala, um mundaréu que conhecia cada canto, cada fresta, cada mofo, cada de tudo, cada de nada. Decidida, tentou convencer qualquer desânimo de que já passara da hora de se enturmar. Que aquela gente no bar era divertida. Que a vida precisava lhe sorrir.

Amanhã. Sim, amanhã. De amanhã não passava. Iria direito da repartição para o Bar do Bosco. Retocaria a maquiagem antes de se despedir dos colegas no serviço. Que era necessário chegar apresentável.

Amanheceu. Lavou o rosto. Escovou os dentes, passou os dedos nos cabelos grisalhos, tintas estavam proibidas. Sorriu. Sorriu de novo. A voz saiu como deu:

— É hoje, Isolda! Quem sabe até um namorado. Nem precisa ser galã, mas que seja cheiroso.

Tomou café, entrou debaixo do chuveiro, enxugou-se suavemente com a toalha mais felpuda. Arrumou-se para a noite de estreia. Retorno que fosse. Foi trabalhar.

Manhã, tarde, quase hora de terminar o expediente. Foi ao banheiro, retocou a maquiagem. Linda! Bela! Apresentável. Era o que tinha. Que se dane!

Isolda, como de costume, se despediu dos companheiros de labuta. Ninguém pareceu notar nem sequer um risco de diferença. Se tinha, nem mesmo ela acreditava existir.

Do outro lado da calçada, observou o movimento no Bar do Bosco. Tudo indicava que o ambiente estava ainda mais animado. Os olhos brilharam por um instante. Voltou para o quarto e sala.

Amanhã. Sim, amanhã. De amanhã não passava!

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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