Peças do quebra-cabeça do BRB aparecem e começam a se encaixar

Redação
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João Zisman - Texto e Imagem

A história do BRB com o Banco Master já teve de tudo um pouco. Bilhões, banqueiro, Polícia Federal, Banco Central, Supremo, documentos, mensagens encontradas em celular, versões que envelhecem depressa e números tão grandes que em algum momento a gente começa a perder a noção de quanto dinheiro cabe dentro deles. E, quando parecia que o estoque de novidades começava a diminuir, surgiram as conversas entre Ibaneis Rocha e Daniel Vorcaro durante o período em que se tentava viabilizar a compra do Master pelo BRB.

Ibaneis confirmou os contatos e explicou que tratava institucionalmente de uma operação que, naquele momento, lhe havia sido apresentada pelo então presidente do banco, Paulo Henrique Costa, como boa para o BRB e para o Distrito Federal. A explicação precisa ser colocada no lugar certo, inclusive porque conversar não é crime, tratar de uma operação envolvendo um banco controlado pelo governo também não e mensagem de celular, por mais saborosa que possa parecer quando chega ao noticiário, não vem acompanhada de sentença judicial.

O que me chama atenção está em outro lugar. Quanto mais aparecem pedaços dessa história, mais impressiona perceber o tamanho da mesa em que esse negócio esteve sentado, porque não estamos falando de uma pequena operação bancária que escapou ao controle de meia dúzia de gerentes. A compra do Master atravessou gabinetes, conselhos, pareceres, advogados, executivos, órgãos reguladores, conversas políticas e uma quantidade respeitável de gente muito bem paga justamente para saber onde estava pisando, mas continuamos tentando reconstruir o caminho olhando as pegadas que aparecem pelo caminho.

Um dia surge uma mensagem, no outro aparece um documento, depois vem um número novo, alguém explica uma reunião, outro esclarece que conhecia apenas determinada parte da operação, chega uma decisão judicial e logo aparece mais uma conversa. O quebra-cabeça ganha algumas peças enquanto descobrimos que provavelmente ainda existem muitas debaixo da mesa, e é nesse ponto que o caso começa a ficar mais interessante do que a personagem que estiver ocupando a manchete daquela manhã.

Porque banco tem memória, governo tem memória, conselho de administração também, e uma operação de bilhões de reais deveria deixar memória suficiente para encher armários. Existem atas, pareceres, avaliações de risco, manifestações jurídicas, apresentações, comunicações aos órgãos reguladores e decisões administrativas, quase sempre acompanhadas de nomes, datas e assinaturas. Um negócio desse tamanho pode dar errado, pode ter sido mal avaliado, pode esconder irregularidades que ainda serão demonstradas ou responsabilidades que acabarão afastadas, mas dificilmente atravessa tantas portas escondido no bolso de alguém.

Por isso começa a causar alguma estranheza que o Distrito Federal continue conhecendo essa história como quem acompanha uma série e espera o episódio seguinte. Talvez amanhã apareça outra mensagem, depois um documento, na semana seguinte um número diferente, e cada revelação produzirá por algumas horas a sensação de que finalmente entendemos tudo, até que uma informação nova obrigue todo mundo a reorganizar novamente a sala.

Esse modo fragmentado de conhecer os fatos é ruim até para quem não tem responsabilidade alguma pelas irregularidades investigadas, porque suspeitas correm mais depressa do que explicações e personagens acabam julgados pelo pedaço da história que vazou naquele dia. Uma cronologia minimamente organizada faria muito mais pela compreensão do caso do que a sucessão de descobertas que hoje alimenta o noticiário.

Seria importante saber quando começaram as conversas, quais informações o BRB possuía naquele momento, que riscos haviam sido identificados, quem recebeu os pareceres, quais alertas existiram, por que foram considerados superáveis e em que momento aquilo que era apresentado como uma oportunidade começou a revelar problemas que hoje parecem tão evidentes para quem olha a história de trás para a frente. Isso não é caça às bruxas nem tentativa de distribuir culpa antes das investigações terminarem, mas uma questão elementar de governança de uma instituição financeira controlada pelo Distrito Federal.

As responsabilidades criminais pertencem à Polícia Federal, ao Ministério Público e à Justiça, e não cabe ao jornalismo preencher com adjetivos aquilo que a investigação ainda precisa demonstrar. Há, porém, uma pergunta institucional que pode ser feita sem condenar ninguém: como uma operação dessa dimensão percorreu tanto caminho e por que, tanto tempo depois, ainda precisamos de mensagens encontradas em telefones para compreender como as decisões foram sendo construídas?

O BRB precisa preservar patrimônio, solidez, gestão e credibilidade num momento particularmente delicado de sua história, e talvez recuperar confiança também dependa de uma providência muito menos espetacular do que buscas policiais, decisões judiciais ou novas mensagens reveladas pela imprensa. É preciso arrumar a história, colocar datas, documentos, decisões e responsabilidades funcionais em sequência, separar aquilo que se sabia naquele momento daquilo que somente foi descoberto depois e permitir que os fatos falem com alguma ordem.

Já existem peças demais espalhadas pelo chão e, à medida que algumas começam a se encaixar, fica cada vez mais difícil compreender por que ainda precisamos esperar a próxima conversa encontrada num celular para descobrir como uma operação de bilhões de reais foi escrita.

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