Zé Carlos, o nômade que desafiou o frio e voltou para brindar com Baco

Redação
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José Seabra - Foto Acervo Pessoal

Aprendi a conhecer, do alto dos meus 3/4 de século, homens que nascem para ficar, e outros, para partir. Como também aqueles que partem apenas para descobrir que o melhor lugar do mundo continua sendo a mesa de dominó, onde pedras bem colocadas, uma conversa atravessada e uma dose de cachaça são suficientes para transformar qualquer mortal em semideus. Zé Carlos, um nômade por vocação, aventureiro por teimosia e filósofo de botequim por merecimento, pertence a essa última categoria.

Depois de abandonar temporariamente os domínios de Águas Claras, o nosso personagem decidiu desafiar os mapas, as fronteiras e, sobretudo, o termômetro. Seu destino anunciado era a terra dos esquimós, onde o gelo é eterno, o vento corta a alma e até os ursos-polares pensam duas vezes antes de sair de casa. Mas, como acontece com os grandes exploradores, houve um pequeno desvio de rota.

Zé Carlos não chegou ao Alasca, mas bateu na trave. Foi parar em Toronto, no Canadá, onde acomodou seu corpo que insiste em classificar como másculo, uma afirmação que, por respeito à amizade e à liberdade de expressão, ninguém ousa contestar publicamente. Nos bastidores, entretanto, há quem sustente que a musculatura anunciada pertence mais ao terreno da mitologia do que ao da anatomia.

Mas, não serei cruel. Afinal, até os heróis gregos tinham suas fraquezas. Aquiles possuía um calcanhar vulnerável, Narciso apaixonou-se pela própria imagem, e Zé Carlos, aparentemente, acredita que o espelho ainda lhe devolve o vigor de um gladiador romano.

Agora, de volta a Águas Claras, o viajante reencontra sua verdadeira pátria, um território onde as amizades resistem às distâncias, as histórias crescem a cada repetição e os adversários do dominó já começam a sentir um frio na espinha. Não o frio canadense, naturalmente, mas aquele provocado pela presença de um jogador que conhece as pedras como Zeus conhecia os raios.

E há um detalhe que torna seu retorno ainda mais oportuno. É que no próximo dia 27, precisamente 48 horas depois de o Brasil conhecer o resultado do segundo turno da eleição presidencial, Zé Carlos terá motivos de sobra para comemorar. Não necessariamente pela vitória do candidato de sua preferência. Aliás, descobrir em quem ele vota é tarefa mais complicada do que encontrar uma agulha no palheiro ou convencer um político de que a verdade também merece espaço nos discursos. Nosso nômade guarda suas preferências eleitorais a sete chaves. Nem sob tortura verbal, nem diante de uma rodada generosa de aguardente, revela o nome escolhido para ocupar o Palácio do Planalto.

Nesse particular, Zé Carlos é uma reencarnação tropical de Harpócrates, divindade associada ao silêncio, ao segredo e à confidencialidade. Se os gregos lhe ergueram altares, os frequentadores das mesas do Clube do Dominó da 205 Sul, em Águas Claras, bem poderiam oferecer a ele uma pequena estátua, com o indicador sobre os lábios e uma urna eletrônica aos pés. O segredo é tamanho que nem Hermes, mensageiro dos deuses e especialista em atravessar fronteiras, conseguiria arrancar-lhe uma confissão. Zé Carlos pode discutir o preço do bacalhau, a temperatura de Toronto, a qualidade da cachaça e até a decadência dos costumes, mas, quando o assunto é voto, transforma-se numa esfinge. E esfinge, como sabemos, não costuma entregar respostas de graça.

Sua grande festa, porém, independe das urnas. No dia 27, o calendário lhe apresentará 57 primaveras. Ou seriam 57 invernos, considerando sua recente intimidade com as terras geladas do hemisfério norte? Isso pouco importa. O fato é que Zé Carlos chega à nova idade com a experiência dos sábios, a malícia dos jogadores e a disposição dos adolescentes que ainda acreditam poder conquistar o mundo; isso, claro, ao menos até a segunda dose.

Zé Carlos, porém, não entende apenas das 28 pedrinhas. No xadrez, por exemplo, ele apresenta-se como estrategista digno de enfrentar os generais de Alexandre, o Grande, enquanto movimenta cavalos, protege bispos, sacrifica peões e ameaça reis com a solenidade de quem decide o destino das civilizações. No dominó, entretanto, revela sua verdadeira natureza olímpica. Ali, diante das peças espalhadas sobre a mesa, transforma-se em senhor absoluto das combinações, das armadilhas e das vitórias anunciadas.

É nessas ocasiões que Baco entra em cena. O deus do vinho, das festas e dos excessos certamente reconheceria nesse brasiliense por adoção de 57 anos um discípulo dedicado. Para isso basta que alguém coloque, discretamente, uma dose de aguardente ao alcance de sua mão. O olhar se ilumina, o raciocínio ganha asas e as pedras do dominó parecem obedecer a uma ordem sobrenatural.

Se vence, atribui o triunfo à inteligência. Se perde, culpa a distribuição das pedras, se o adversário reclama, invoca os deuses, e se a discussão ameaça ultrapassar os limites da civilidade, recomenda outra rodada, porque nenhuma divergência merece sobreviver a uma boa cachaça.

Assim caminha Zé Carlos, o nômade de Águas Claras. Um homem que atravessou fronteiras, enfrentou o frio, contemplou paisagens distantes e regressou com a certeza de que a vida não se mede pelos quilômetros percorridos, mas pelas amizades preservadas. No fundo está aí sua maior vitória, porque enquanto o Brasil se divide entre vencedores e derrotados, entre vermelhos e azuis, entre discursos inflamados e promessas de reconciliação, nosso personagem prepara uma comemoração sem necessidade de segundo turno.

Afinal, aos 57 anos, Zé Carlos não precisa de pesquisa eleitoral para confirmar sua popularidade entre os amigos. Tampouco necessita de tribunal superior para homologar sua existência, porque sua diplomação foi concedida pelo tempo, sua posse é renovada a cada aniversário e seu mandato, esperamos, será prorrogado por muitas décadas.

Que Apolo lhe conceda luz, Atena lhe preserve a inteligência, Hermes lhe ofereça novas viagens e Baco jamais permita que falte alegria à sua mesa. Quanto a Harpócrates, que continue protegendo seu segredo eleitoral, porque há mistérios que a humanidade não precisa desvendar. E, quando chegar o dia 27, que ninguém se esqueça de erguer o copo em homenagem ao aniversariante. Porque presidentes passam, governos terminam, impérios desmoronam e até os deuses do Olimpo acabam esquecidos.

Entretanto, um bom amigo, quando sabe cultivar a amizade, permanece. Ficam aqui, portanto, meus parabéns, Zé Carlos! Bem-vindo de volta à terra onde o gelo só tem serventia dentro do copo. E que venham os 57, com saúde, alegria, muitas viagens e algumas vitórias no dominó. Só não vale esconder as pedras como esconde o voto.

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José Seabra é CEO fundador de Notibras

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