Podemos fechar os olhos diante de uma cena que nos perturba. Os ouvidos, porém, não dispõem de pálpebras. Uma frase pode nos alcançar antes que tenhamos tempo de recusá-la, e o que ouvimos passa a fazer parte da nossa vida, mesmo quando preferiríamos nunca ter sabido. Essa inquietação de Coração tão branco, do espanhol Javier Marías, atravessou o encontro de hoje do grupo de leitura Ao Pé do Livro, no Capitu Café, no Cosme Velho, Rio de Janeiro.
Escolhido para a leitura do mês, o romance dividiu opiniões. Houve quem gostasse e quem não se deixasse conquistar pela história. Mesmo entre os que não gostaram, porém, a participação foi intensa. As diferenças de avaliação alimentaram uma conversa que encontrou, no próprio livro, questões suficientes para um excelente debate.
Marías aproxima o leitor de uma experiência incômoda: conhecer alguma coisa pode alterar definitivamente a relação que mantemos com alguém. Na história de Juan, narrador e intérprete de profissão, o casamento e o passado familiar se entrelaçam a palavras ouvidas, segredos e revelações. Trabalhar com aquilo que os outros dizem não lhe assegura domínio sobre as consequências de escutar. A palavra, depois de recebida, já não depende apenas de quem a pronunciou.
Há relatos dos quais talvez uma pessoa devesse ser poupada. A ideia incomoda porque estamos habituados a atribuir à revelação um valor positivo: esclarecer, confessar, dizer a verdade. Mas contar também pode ser uma maneira de transferir um peso. Quem fala se alivia; quem escuta começa a carregar algo que não lhe pertencia.
Isso não torna o silêncio automaticamente generoso. Sob a alegação de proteger alguém, também se pode esconder o desejo de preservar a própria imagem, evitar uma consequência ou manter o outro numa ignorância conveniente. A dificuldade está em distinguir o cuidado da omissão interessada. Quem decide o que outra pessoa suporta saber? E com que direito se exige dela que receba toda a verdade?
A imagem dos ouvidos sem pálpebras dá uma dimensão muito concreta a esse problema. Podemos desviar o olhar, baixar a cabeça, fechar os olhos. A voz, no entanto, chega até nós. Às vezes, basta o começo de uma frase. Quando compreendemos o que está sendo dito, a possibilidade de não saber já passou.
Lido por esse caminho, o romance nos leva a pensar na responsabilidade de quem narra. Uma confidência pode aproximar duas pessoas, mas também comprometer quem a recebe, pedir-lhe silêncio, exigir uma compreensão que ela talvez não possa oferecer. Ouvir não equivale a concordar; ainda assim, depois de certas revelações, continuar a convivência como antes se torna difícil. O passado de alguém ganha um lugar no presente de outra pessoa.
Essas questões ajudam a compreender por que uma leitura pode render tanto mesmo quando não agrada a todos. No Capitu Café, quem não gostou de Coração tão branco também teve o que dizer e disposição para ouvir. A discordância pôde ser desenvolvida, em vez de encerrada numa avaliação breve. Gostar ou não gostar foi o começo da conversa.
Há uma liberdade importante nesse modo de se reunir em torno de um livro. Ninguém precisa aderir ao entusiasmo alheio para participar. Uma leitura que decepcionou pode ser discutida com atenção, assim como o apreço por um autor pode conviver com perguntas e objeções. O encontro ganha quando há espaço para essas diferenças sem a obrigação de resolvê-las.
Em outubro, o Ao Pé do Livro terá outra história para compartilhar. Os integrantes escolheram As alegrias da maternidade, de Buchi Emecheta, para a próxima leitura. O encontro será no dia 18 de outubro, em local ainda a ser divulgado.

