Bertoleza ainda lava carros e os traços escravistas continuam

Eduardo Martínez
9 minutos de leitura
Texto: Rachel Gomes de Lima - Foto: Francisco Filippino

Estudar é algo maravilhoso, abre mundos, nos dá conhecimento, senso crítico, certa liberdade, mas sair da caverna, olhar o mundo por seus próprios olhos e não mais por sombras refletidas nas paredes é algo assustador e doloroso. Tentar alertar seus colegas de caverna de que imagens refletidas nas paredes são apenas uma face das outras verdades que existem lá fora pode ser até mortal, segundo o mito de Platão.

Recentemente comecei a ler mais sobre escravidão e racismo. Não são meus temas específicos de pesquisa, mas são temáticas importantes na História e, principalmente, na formação da sociedade brasileira. Somos o país que arrancou mais de 5 milhões de africanos provenientes de várias etnias para um sistema racial de escravização, e fomos o último país das Américas a abolir tal regime. Com a abolição veio a liberdade, mas sem dignidade, sem direitos, sem meios para iniciar a corrida no capitalismo liberal. Criou-se um mito da “democracia racial” que persiste e que ignora o racismo estrutural que vigora em nosso meio.

Tempos atrás eu quis comemorar meu aniversário em um restaurante diferente. Algum a que eu nunca tivesse ido. Acabei escolhendo um de comida italiana que, de fora, parecia ser muito charmoso, mas na prática tinha mobiliário descuidado, pratos pequenos, sabores comuns e um preço digno de Europa que me fez ter arrependimento na hora de ter querido ir a um lugar diferente.

Pode me chamar de pobre ou sem classe, não me importa o que sua ignorância possa fazer você pensar, mas suburbana que sou, gosto mesmo é de lugares que tenham boa comida, com porções fartas, um bom chope gelado, bom atendimento e preço justo pelo combo completo.

É verdade que o tal restaurante tinha um bom atendimento. O rapaz que nos atendeu era demasiadamente educado e atencioso. Posso dizer que achamos que o ponto alto do lugar foi ele e seu atendimento. O rapaz era um jovem negro com brilho nos olhos, como tantos jovens a quem dou aula e que, espero, tenham um mundo melhor. Ele avisou que a comida iria demorar um pouco, pois o lugar não tinha pratos pra duas pessoas (era estilo europeu, aff) e, para virem todos juntos, seria preciso um pouco mais de tempo.

Enquanto as crianças faziam uma série de atos sem educação pra um restaurante fino em plena Zona Norte do RJ que se achava em Paris, resolvi olhar à minha volta e, com essa série de informações históricas que vinha estudando naqueles dias em mente, percebi algo que me entristeceu na hora: todos os atendentes e cozinheiros do restaurante eram negros. E todos os clientes, com exceção de uma mulher de uns 35 anos, eram brancos. Ali tive uma experiência sociológica e antropológica real, um estudo de campo em pleno dia do meu aniversário que me fez atravessar uma série de questionamentos dirigidos principalmente àqueles que insistem em dizer que não há diferença social e racial no Brasil. Me senti em pleno século XIX.

Olha, você pode dizer que estou exagerando. Eu já não estava curtindo muito o restaurante, é verdade, mas tive um choque, parecido com o que já sabia desde a infância, quando ia aos restaurantes e via que todos os garçons (inclusive meu pai) eram nordestinos e que sempre sofriam com regionalismos xenofóbicos. Agora, naquele momento, eu me ligava mais uma vez no racismo estrutural, além da já conhecida desigualdade social em que vivemos. Se ainda assim não te convenci, deixa eu te relatar outra história.

Aparentemente era uma família que trabalhava unida, em um lava-jato improvisado na esquina da rua. Até que um dia pude conhecê-los um pouco melhor e perceber quão complicadas são as tais relações sociais existentes ainda hoje em nosso país.

A mãe tinha cinco filhos. Dois de relacionamento anterior e três com o atual marido. Pele negra, mulher pobre, trabalhava incansavelmente na função de lavar veículos: carros, vans e até micro-ônibus. Muitas vezes fazia isso sozinha, com o marido branco comandando os negócios e o trabalho. Só comandando mesmo, porque foram raros os momentos em que o vi botando a mão na massa.

O filho mais velho do casal também trabalhava. Cursava o Ensino Médio à noite. Dizia que o sonho dele era ser policial para ter dinheiro. As outras duas filhas estudavam à tarde. Não costumavam lavar os carros. Mas, às vezes, ficavam ali com a mãe. Já tinham passado por situações constrangedoras por causa do pai, que era conhecido no bairro por ser malandro, mão leve na juventude, praticando furtos nas adjacências. É viciado e usa o dinheiro do trabalho familiar na compra de drogas, deixando também de comprar alimentos para dentro de casa.

Ouvi da própria esposa que ele tinha surtos por causa do vício. A chave Pix do pai ficava disponível apenas no celular do filho mais velho, para que todo o dinheiro eletrônico fosse pra conta do pai. Dinheiro nas mãos da família só quando alguém pagava em notas e sem a presença dele no local. Todos ficavam dependentes, presos.

As meninas são tão jovens. Bonitas. Mas, obviamente, com o psicológico bem abalado. Acham que são sãs, mas não externam tão bem assim a sanidade. O pai já fez até escândalo na porta da escola delas quando a mãe saiu de casa uma das vezes.

A mãe disse ter sido “porra-louca” quando jovem. Subia morro, falava com chefes do tráfico, curtia bailes de corredor e entrava no tapa quando preciso. Hoje, da igreja, não fazia mais essas coisas. Resistia instruindo os filhos no ambiente atormentado pelo vício, pelo machismo e outros preconceitos do pai de seus filhos. Tem ofício, mas não pode trabalhar fora. O marido não deixa. Quando ela sai de casa, ele a ameaça psicologicamente, proíbe a saída das filhas menores e ela acaba voltando. E acaba trabalhando pra ele novamente.

Ver aquela cena quase que diariamente, com ela lavando os carros e ele comandando, ela negra e ele branco, me remete à obra “O cortiço”. Bertoleza, a mulher escravizada que achava que o marido João Romão, dono da venda e do cortiço, tinha lhe comprado a alforria e descobre no fim que nunca havia deixado de ser escravizada.

Os encontros entre mim e essa família, que já eram poucos, deixaram de acontecer. Não frequentamos mais o mesmo lugar, mas a última história que eu soube foi que o filho mais velho, que um dia me disse que “queria ser caveira”, está seguindo os passos do pai, praticando pequenos furtos e golpes pelas redondezas.

A mãe e as filhas saíram de casa umas duas vezes depois disso e voltaram. Há pouco tempo, percebi que desapareceram. Acredito que tenham conseguido, de alguma forma, se libertar dele, mas torço mesmo é que tenham conseguido sobreviver à luta contra toda a estrutura que nos envolve e que os prejudica de forma “nocáutica”: o racismo pela cor da pele, o machismo e o tom de superioridade sobre a mulher, e a pobreza que poda direitos considerados humanos e universais.

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Rachel Gomes de Lima (@rachel.lima.prof), escritora, é doutora em História e professora universitária carioca.

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