Chico e Dirceu

Eduardo Martínez
5 minutos de leitura
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

Quem diria, Francisco, na época conhecido como Chico, quase virou Dirceu…

A história começa quando Francisco ainda atendia por Chiquinho. Filho único, ele morava com a mãe, também filha única, na casa da avó, dona Maria. Ela era professora, dedicara sua vida ao magistério e na ocasião era diretora de um grupo escolar.

Os rendimentos de dona Maria sustentavam a casa, ainda que a filha, desquitada – só haveria divórcio no Brasil a partir de 1977 –, ajudasse um pouco nas despesas com o dinheiro que recebia do verme – termo reservado ao pai do garoto, que certa noite saiu pra comprar cigarros, bateu asas e voou (tá certo, verme não voa, mas a ofensa não se pretendia cientificamente acurada).

Embora o verme praticamente não tivesse contato com o filho, limitando-se a pagar determinada quantia mensal e olhe lá, o verminho, quer dizer, o menino não se ressentia do abandono, sendo mais que paparicado pela mãe e pela avó. O problema era a solidão: Chiquinho não tinha irmãos ou primos e havia poucos moleques de sua idade no bairro. Por isso, era uma festa quando dona Maria o levava ao grupo escolar. Para adular a chefe, avó coruja, as professoras o tratavam a pão de ló. E, maravilha das maravilhas, havia dezenas de crianças com as quais brincar na hora do recreio. Ele também participava das comemorações do fim de ano escolar, muito legais…

O tempo passou. O menino cursou o ginásio, deixou o Chiquinho pra trás, foi adolescendo, avançou para o colegial. Em 1973 Francisco/Chico estava com 16 anos, cursando o segundo colegial, quando ocorreu a quase metamorfose dircêlica.

Chico andava por um corredor, pra sorte dele quase deserto na ocasião, quando ouviu uma voz zombeteira que o chamava:

— Ei, Chico Borboleta, vem cá!

Parou e voltou-se. Quem zoava era Eduardo, colega de turma, e a seu lado, sorridente, estava Sônia, outra colega, que segurava algo pequeno nas mãos.

— Que porra é essa?

— Olha, Sônia, Chico Borboleta tá bravinho… Calma, Chico Borboleta, você já vai saber… e os demais alunos também, kkk!

Sempre sorrindo, Sônia aproximou-se e apontou-lhe o que segurava. Era uma velha fotografia em preto e branco. Mostrava um menininho de uns seis anos, cuja expressão séria contrastava com a fantasia de borboleta que envergava.

Com o coração apertado, Francisco/Chico reconheceu-se na foto. E lembrou que Sônia era filha de uma professora do grupo escolar que sua avó dirigia.

— Achei lá em casa, Chico Borboleta. Você está uma gracinha, Chico Borboleta!

— E que asas ma-ra-vi-lhóóó-sas, Chico Borboleta! – Eduardo retomou a zoeira.

— O melhor é a anotação no verso da foto, petiz Chico Borboleta! – e mostrou-lhe a inscrição:

“O petiz Francisco, neto de nossa querida diretora, Maria xxx”, escrevera alguma puxa-saco, talvez a mãe de Sônia.

Atordoado com a saraivada de “Chico Borboleta”, e com aquele maledetto “petiz”, Chico engoliu em seco e afinal implorou:

— Gente, se a reação souber dessa foto, vamos perder a eleição para o Grêmio do colégio…

Eduardo e Sônia entreolharam-se e, a contragosto, concordaram. Os três eram de esquerda, opositores da ditadura, e participavam da chapa progressista que concorria à eleição para o Grêmio.

— Que peninha, Chico – disse Eduardo com um suspiro, já omitindo o “Borboleta”. – Ia ser tão divertida a zoeira…

E foi assim que Francisco, mais Chico que nunca, escapou do Borboleta. Nos anos seguintes, ele se deparou com duas alternativas para pensar no caso. Pela primeira, escapara de ser uma borboleta doidivana, louquíssima (tremia nas bases só de pensar nessa hipótese); pela segunda, escapara da identificação a Dirceu Borboleta, personagem de O bem amado, de Dias Gomes, que na ocasião quebrava recordes de audiência. Como era previsível, tratou de se apegar à segunda hipótese e de sufocar bem sufocadinha a primeira.

“Quase virei Dirceu”, dizia a si mesmo, quando o caso lhe vinha à mente. Quanto à outra possibilidade, da borboleta loketa, expulsava essa lembrança incômoda para o quinto dos infernos, ou melhor, de seu psiquismo.

Mas a marvada sempre vortava, batendo as asona.

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