Drummond escreveu, em O sobrevivente: “Impossível compor um poema a essa altura da evolução da humanidade”.
Concordo, mas consigo produzir algumas reflexões. Não uma análise política – essa foi minha praia durante muito tempo, militância oblige, mas parei com isso. Algo bem mais subjetivo.
Entrei no Facebook em 2018. Em minha primeira postagem, fiz alusão à cólera de Aquiles, mencionada no comecinho da Ilíada, marco inicial da literatura do Ocidente. E informei urbi et orbi que iria escrever sobre o Bozo, “o cólera de Aquiles”.
Prometi e cumpri. Em contos e poemas (e, vá lá, em alguns textões políticos), desanquei o Bozo e a familícia, os bolsomínions, a gadaiada.
Por que, então, não tenho vontade de fazer o mesmo com o Flávio rachadinha? Podres dele não faltam para inspirar cantigas de escárnio, ou o equivalente contemporâneo dessas composições medievais.
Porque ele não é nada, uma simples ameba. Bozo era um líder do mal; o rachadinha, nadica de nada O pai expunha a bunda ao açoite do sarcasmo, o filhote anda nu, sem dar a mínima, e mente na caradura. Tantas mentiras, que não dá pra escolher uma para desmascarar. E assim ele escapa, todo pimpão.
Claro que, até a eleição, será preciso levá-lo a sério, desconstruí-lo, demonstrar as consequências criminosas de suas propostas, que vão ferrar os brasileiros. E, afinal, derrotá-lo nas urnas – algo difícil, mas possível. Mas, pra quem escreve, que nem eu, contos políticos escrachados (não exclusivamente, mas também), as provas de corrupção e entreguismo dele são areia demais pro meu caminhãozinho, tanta coisa que nem sei por onde começar.
Sabem a história do gringo que só comia feijoada? Ele não aguentava mais; certo dia, decidiu inovar e pediu:
— Sanduíche.
— De queijo ou presunto?
— Sanduíche.
— Queijo ou presunto?
— Sanduíche!!!
— Queijo ou presunto?!!!
Sem conhecer o significado dessas palavras e, portanto, incapaz de escolher, o gringo desistiu:
— Feijoada…
Eu tô assim. O pior é que o B.O., a folha corrida, a capivara do rachadinha tem muito mais opções do que queijo ou presunto, e o embaraço da escolha me impede de entrar em campo. Mas, a essa altura da evolução da humanidade, escrever sobre ele é preciso, traçar uma feijoada metafórica não é preciso.

