Lado B da Literatura: F. Assis, o escritor que fez reis de cabo de vassoura

Eduardo Martínez
10 minutos de leitura
Texto: Daniel Marchi - Foto: acervo pessoal

Antes de escrever histórias, Fernando de Assis, que assina F. Assis, precisou fabricar seus próprios reis. Desenhou o tabuleiro em papel, fez as peças com pedaços de cabo de vassoura e as identificou a caneta. Era menino, gostava de xadrez e aquele era o jeito possível de ter um jogo. As diferenças entre um peão e um rei dependiam, ali, de alguns riscos sobre a madeira.

O xadrez o acompanharia por bastante tempo. Mais tarde, frequentou um clube no Humaitá e guardou histórias das partidas que disputava. Faz anos que não joga, mas se lembra bem daquele primeiro tabuleiro. A madeira, por sua vez, continua por perto.

No quintal de sua casa, no Rio da Prata, em Campo Grande, Fernando mantém uma pequena marcenaria e um laboratório de eletrônica. Já fez cabideiros retráteis, uma espreguiçadeira para a piscina, uma bancada de lavabo em angelim-pedra com detalhes em resina. Recuperou uma cadeira de balanço. Também construiu um cubo de luzes infinitas, desses objetos que parecem guardar um espaço maior do que aquele que ocupam.

Não se apresenta como marceneiro. O gosto pelo formão e pelo serrote veio do padrinho, irmão de sua mãe, homem de quem fala com afeto e que tinha opiniões bastante particulares sobre seus estudos de violão. Ao ouvi-lo tocar, sentenciava:

— Assim como as pessoas, tem instrumentos que nascem para sofrer.

Fernando estudou também um pouco de piano e é severo com o resultado das duas experiências. Ficou, contudo, o prazer de ouvir. Zé Ramalho, Alceu Valença, João Bosco e Luiz Melodia estão entre suas escolhas. Cartola, Ataulfo Alves e Nelson Gonçalves chegam acompanhados das lembranças do pai e do padrinho. Há canções que, mesmo quando tocadas para ninguém mais na sala, trazem companhia.

Os livros entraram cedo na casa dos pais, que tinham poucos estudos e gostavam muito de ler. Vieram as edições ilustradas de Esopo, de Hans Christian Andersen, dos irmãos Grimm. Depois, Monteiro Lobato. O menino nascido e criado em Bento Ribeiro cresceu entre essas histórias e foi encontrando outras: Alice, Júlio Verne, Cervantes, Saint-Exupéry. Na adolescência, ensaiou escrever. A vontade ficou à espera enquanto a vida lhe apresentava tarefas mais urgentes.

Sua formação foi em eletrônica e instrumentação. Trabalhou durante anos em plataformas de petróleo e teve uma assistência técnica de celulares no Leblon. A escrita voltou por um pedido do filho. Fernando costumava ler com ele antes de dormir. Quando terminaram um dos livros, o menino pediu uma história que saísse da imaginação do pai. A leitura em família havia produzido um ouvinte que agora queria conhecer também as histórias de Fernando. Dessa experiência nasceu o primeiro livro de Os filhos de Wigand, A caixa.

Na oficina do Leblon, as histórias costumavam chegar com defeito no aparelho. Luiz Melodia foi seu cliente. Nuno Leal Maia apareceu certa vez aflito com um Motorola que não ligava. A agenda estava toda lá dentro. Para quem dependia dos números guardados naquele telefone, a pequena tela apagada tinha o tamanho de um desastre.

Fernando o convidou a sentar-se ao lado da bancada. Examinou o aparelho, identificou o problema, refez algumas soldas. Em menos de dez minutos, devolveu o celular funcionando. Ainda se diverte ao lembrar a alegria de Nuno. O reparo era simples; difícil seria explicar isso a quem, minutos antes, temia perder a agenda inteira.

Com os próprios livros, Fernando teve menos sorte. Não gosta de se desfazer deles e empresta com o coração apertado. Durante um tratamento dentário, soube que o dentista procurava um título da Livraria Freitas Bastos, já fora das prateleiras. Ele tinha o exemplar e o levou. Na consulta seguinte, a recepcionista informou que o profissional não trabalhava mais ali. Não sabia dizer para onde tinha ido. Fernando nunca mais viu o livro.

O caso poderia ter ficado sozinho, mas ganhou companhia nos anos de trabalho embarcado. No camarote da plataforma, sua distração era ler. Dividia o espaço com um colega que, assim como ele, voltava sempre àquela unidade. Conviveram durante anos. Um dia, o homem pediu que lhe emprestasse o livro quando terminasse a leitura. Fernando emprestou. No embarque seguinte, soube que o colega não retornaria. Também dessa vez ninguém conseguiu lhe dar um destino certo.

É compreensível que um leitor, depois disso, pense duas vezes antes de entregar um exemplar. Fernando considera também escrever uma ficção com aqueles desaparecimentos. Não se recorda do título emprestado ao dentista, mas a história do empréstimo continua inteira.

Aposentou-se no início da pandemia. Há mais de quinze anos mora no Rio da Prata, numa casa com plantas, jardim e grama para cortar. Fala das montanhas verdes e dos animais que aparecem por lá. Macacos são presença conhecida; cobras andando pelos fios dos postes ainda lhe parecem uma cena difícil de acreditar. Pensa em ambientar uma ficção na região. Por enquanto, há o jardim para cuidar e os projetos da oficina.

Há também o almoço. É ele quem cozinha em casa, com gosto por comida simples. Um ensopado de quiabo com jiló ou uma costela com batatas e agrião o satisfariam muito, não fosse um pequeno contratempo: a esposa e o filho não comem esses pratos. Se os preparar, terá de comê-los sozinho. A convivência familiar impõe ao cozinheiro negociações que o escritor pode dispensar quando decide o jantar de seus personagens.

Fernando se sente bem na própria companhia. Não tem entusiasmo pelo futebol nem gosta de ambientes barulhentos. Numa festa de aniversário, estava sentado, conversando com um amigo, quando um grupo começou a tocar. A música tornou a conversa impossível. Ficou em silêncio pelo resto daquele encontro. O volume havia tomado o lugar da pessoa com quem falava.

Nem sempre, porém, o sossego resolve a vida do leitor. Quatro livros aguardam sua iniciativa. Pega um, passa a outro e não avança como gostaria. Diz que precisa ir até o espelho e dar em si mesmo um belo esporro. Para alguém que não gosta de autoajuda, a providência tem a vantagem de dispensar mais um livro.

Com a poesia, sua relação é outra. Lê pouco, sente dificuldade, mas vez ou outra se arrisca a escrever. Também admite que algumas leituras da adolescência ficaram além do que podia compreender naquele tempo. A experiência lhe deu acesso a coisas que estavam impressas desde o começo, mas ainda não encontravam nele quem as entendesse.

No jardim, há um ipê-amarelo que produz pouca flor e muita vagem. Fernando observa as plantas em torno, as regas, a chuva. Tem suas hipóteses sobre a floração discreta e se ocupa delas com o interesse de quem acompanha a árvore para além da época em que ela deveria ficar bonita.

Um jardim também aparece em Vaidade de flor, texto seu publicado recentemente no Café Literário. Ali, Fragrância se ressente da admiração que as flores recebem e só se dá por satisfeita quando uma jovem cega se demora apreciando os aromas. Enquanto o perfume reclama reconhecimento, as abelhas fazem seu trabalho. Depois, as flores murcham. A narrativa é breve e deixa uma pequena disputa humana acontecendo entre os canteiros.

Quando a conversa chega às pessoas que o marcaram, Fernando volta ao pai e ao padrinho. Chama os dois de espelhos nos quais gostaria de se ver. Ao lembrar o pai, confessa: “Gostaria muito de ter sido como ele.”

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Daniel Marchi é poeta, contista, advogado e professor universitário no Rio de Janeiro. Editor do Café Literário e fundador da Editora Fava, é autor de A Verdade nos Seres (poesia, 2024) e Território do Sonho (contos, 2026). @prof.danielmarchi.

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