Chovia muito na terça-feira à noite, e Sara ligou para seu noivo e disse que não precisava buscá-la na faculdade, como sempre fazia. “De forma alguma, Sara. Não há por que você ir sozinha para casa, ainda mais nessa chuva”, insistia Henrique.
Sara tinha 23 anos e cursava Direito em uma universidade tradicional no bairro de Botafogo. Todos os dias, ao final de suas aulas, lá estava Henrique, sempre esperando-a na portaria da faculdade para levá-la até sua casa.
No início da graduação, o comportamento zeloso do noivo era bem recebido por ela, que, influenciada por seus pais, acreditava que o gesto cuidadoso do noivo de mantê-la protegida era um cavalheirismo praticamente extinto nos jovens de hoje. Entretanto, já havia algum tempo, estava saturada dessa rotina, sentindo-se controlada. O costume que inicialmente era bem recebido tornou-se uma frustração para a vida de jovem universitária de Sara.
Durante a semana de aulas, a jovem via seus amigos vivendo suas liberdades características dos anos de juventude. Sara sentia-se frustrada ao ver os amigos marcando um barzinho, ao final das aulas, na Farani, rua conhecida em Botafogo por seus bares e pontos de encontro para happy hour. Tentou muitas vezes explicar ao noivo que não precisava buscá-la sempre, pois poderia voltar de metrô com alguma amiga e, às vezes, queria comer uma pizza com as meninas, sem pressa e sem preocupação com horário. Sua última conversa com ele fora tão desanimadora que ficara desolada por ter de explicar o óbvio mais uma vez. Para Henrique, era uma desfeita Sara dispensá-lo para ficar em um bar com colegas de turma, como se fosse uma moça qualquer.
“Devo ser um noivo péssimo por ficar preocupado com sua segurança! Essas suas amigas não têm quem as leve em casa, por isso ficam em barzinho até tarde. Não fico confortável em saber que você ficará por aí, mas, se o que você quer é se unir a essas garotas, só posso ficar decepcionado.”
Essas conversas não aconteceram uma única vez. E Sara, sem forças para lidar com a situação, deixava passar os convites, inventava desculpas para as amigas, que, ingênuas, achavam o noivo de Sara um fofo! Um príncipe atencioso! Ela, enquanto isso, sentia-se esgotada, consumida e sem luz.
Em determinado dia, com tempo vago entre uma aula e outra, Sara e uma amiga estavam conversando sobre namoro, e a jovem confidenciou à amiga o pesar que sentia por não poder curtir, como gostaria, os momentos com os amigos, que considerava tanto. Disse sentir-se triste por saber que em breve estariam formados, pensando no mercado de trabalho, cada um com sua vida, e que ela não teria vivido a época da faculdade com as descontrações e alegrias que poderia ter vivido.
“Mas, Sara, seu namorado é tão bacana! Bem que eu queria que o Augusto me desse a atenção que o Henrique dá a você. Sempre preocupado, espera você até com chuva de canivete! Não vale a troca… um chope com amigas em troca de arrumar problema com um namorado como o seu.”
Sara se resignou à fala de sua amiga. Era claro que ela não entenderia: o namorado da amiga vivia dando perdido nela; um opressor que preenchesse sua necessidade momentânea de atenção e sua carência seria o máximo. Não era dela que receberia compreensão e entendimento do que sentia.
“Bom, não acho demais querer um tempo para respirar e curtir minhas amigas. Fico preocupada às vezes: como vai ser quando formos casados? Não faço mais nada da vida, né? Eu e ele, eternamente”, pensou consigo mesma.
Depois da conversa com a amiga, Sara ficou dias pensando em seu relacionamento. Foi como se sua verbalização acendesse uma fogueira em seu coração. Tudo ficou real, tomou forma, e ficou ainda mais pesado lidar com o controle excessivo do noivo.
Por muito tempo, recusou-se a admitir, mas Sara sabia a verdade que reinava lá no fundo: Henrique se sentia incomodado com os rapazes bonitos, com o clima de paquera que havia na faculdade. Galera jovem, livre e desimpedida, com os hormônios à flor da pele, em um ambiente onde tudo podia acontecer: esse era seu real temor. Não queria dar brecha para ninguém! Henrique não percebia que era o seu jeito mandão de impor sua vontade em tudo que a estava cansando. Sara nunca teve dúvida do quanto o amava, mas pensar em uma vida a dois desse jeito a apavorava, a desanimava. Tinham planos de se casar assim que estivessem formados e trabalhando. Nesse momento, porém, Sara se perguntava sobre a vida que a aguardaria em uma relação na qual se sentia trancada em uma gaiola.
Numa sexta-feira, fechando a semana, Sara estava encorajada a ter mais uma conversa com Henrique. Convidou-o para jantar em um restaurante próximo e conversar um pouco. Era sexta-feira e ninguém se levantaria cedo no dia seguinte. Ele ficou na defensiva, mas não pôde recusar o convite; sabia que lá vinha mais pressão.
Já no restaurante, pediram duas Cocas e umas entradinhas para petiscar. Assim que a conversa foi iniciada, Henrique rapidamente foi para seu discurso de protetor, mas isso já era esperado por Sara.
“Eu só quero proteger você. Se você quer sair com suas amigas, não sou seu dono, mas não tem minha aprovação. Você é comprometida e quer fazer coisas de vida de solteiro. Não concordo, Sara.”
Conforme imaginava, a conversa saiu como Sara previra. “Com Henrique não há conversa. Ele sempre diz que cresceu vendo o pai destratar e intimidar a mãe, que nunca será igual a ele, mas suas atitudes não me parecem tão diferentes”, pensou a jovem.
E assim, os dias, semanas e meses foram passando. Apesar de ter conhecimento de que a relação não estava saudável, Sara anulava suas vontades, cedendo aos desejos do noivo. A cada convite dos amigos para os barzinhos que recusava gentilmente, a cada risada despreocupada que não vivia, sentia uma parte de sua juventude se esvair. A proteção e o amor de seu noivo, que antes eram sua vida, tornavam-se uma prisão com portas abertas, mas da qual ela não conseguia sair.
A relação amorosa com o homem dos seus sonhos, o homem certo para ela e aprovado por sua família, tornou-se uma escolha a fazer: amor ou liberdade?
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Fabiana Saka (@fabianasaka) é psicóloga e escritora carioca, colaboradora do Café Literário, de Notibras. Formada em Psicologia, com especialização em Terapia Familiar e mediação de conflitos, atua há mais de 14 anos na clínica. É autora de As Aventuras de Daniel: Não Tenha Medo de Si Mesmo (2024) e As Aventuras de Daniel: eu ajudo em casa (2026).

