“Vivemos a Era do barulho, do banal, da atração mórbida pelo superficial. A política se torna um show. E o show não se importa com justiça, se importa com audiência”. (“Imagem / Simulacro, Guy Debord – A Sociedade do Espetáculo” – 1967)
No consumo, o padrão se repete.
Compramos não o que precisamos, mas o que nos disseram o que queremos.
Livros são lidos porque viralizaram, não porque carregam ideias transformadoras.
A inteligência é substituída pela tendência, o discernimento pelo modismo.
Esse processo gera um ciclo perverso: menos pensamento crítico, mais alienação, mais injustiça, mais consumo de superficialidade.
O sistema se retroalimenta. O preço é altíssimo.
Uma sociedade que não pensa e uma sociedade que não se protege.
E nesse cenário, a idolatria ao superficial não é inofensiva. Ela é funcional ao sistema. Forma um tipo de ser humano ideal, passivo, distraído, reativo, desinformado, viciado em dopamina, treinado para obedecer aos algoritmos e incapaz de sustentar uma ideia.
Quando chega o momento de decidir com o voto na urna, na criação dos filhos, nas escolhas éticas, o vazio cobra a conta. A distração não é neutra.
Tudo é representação. Não se vive, se assiste, não se participa, se consome.
Isto enfraquece a política, a crítica, a solidariedade.
O sujeito distraído é um sujeito desmobilizado, e isto interessa não só aos algoritmos, mas ao poder.
A cultura da distração é uma cultura sofisticada. Enquanto brigamos nas redes sociais, as estruturas permanecem intocadas.
A energia que poderia gerar ruptura é dissipada em debates irrelevantes, escândalos fabricados e rivalidades tóxicas.
Nietzsche via na dúvida um sopro de vida.
Pensar é romper com o conforto, é suportar a angústia, é perder certezas, mas é também a única chance de liberdade.
A burrice se apega ao dogma, a autoridade ao senso comum, porque ali está o repouso. Apesar do ruído, ainda existe silêncio.
Apesar da distração, ainda existe a tensão. Apesar do vazio, ainda existe sentido.
Mas o sentido está morto, não brilha, não contamina, não aparece na vitrine. O sentido precisa ser buscado.
O valor verdadeiro está na pesquisa, na leitura que transforma, na arte que incomoda, no pensamento que desinstala, na espiritualidade que não se vende.
Tudo isto exige disposição para o invisível. E tudo se perde na distração da repetição.
O sistema do mundo digital contemporâneo não pune a superficialidade. Ele a promove. O algoritmo e as Bigtchs temem, na verdade, o sujeito que para, que respira, que pergunta, que duvida, que resiste.
Esse sujeito, mesmo sozinho, já é perigoso porque resgata o poder de escolher com consciência, de dizer não; tem iniciativa e capacidade de criar e enfrentar.
Resgatar o invisível não é alienar-se do mundo, é transformá-lo de dentro, por dentro e assumir o desafio da transformação.
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Gilberto Motta, escritor, poeta, jornalista e pesquisador; aprendiz de raciocínios e reflexões no olho do furacão do Ponto de Mutação. Vive em uma pequena vila de pescadores na Guarda do Embaú-SC.


NOTA DO AUTOR:- essa crônica foi escrita uma semana antes de 04/10/2026 (eleições), o “dia de 55 milhões de distraídos. Vamos em frente, gente!
Do brilhante texto de Gilberto Motta, cito ‘” O sentido precisa ser buscado. O valor verdadeiro está na pesquisa, na leitura que transforma, na arte que incomoda, no pensamento que desinstala, na espiritualidade que não se vende.”
Obrigada, Gilberto, pelo seu texto.