O sujeito distraído

Eduardo Martínez
4 minutos de leitura
Gilberto Motta - Texto e Foto

“Vivemos a Era do barulho, do banal, da atração mórbida pelo superficial. A política se torna um show. E o show não se importa com justiça, se importa com audiência”. (“Imagem / Simulacro, Guy Debord – A Sociedade do Espetáculo” – 1967)

No consumo, o padrão se repete.

Compramos não o que precisamos, mas o que nos disseram o que queremos.

Livros são lidos porque viralizaram, não porque carregam ideias transformadoras.

A inteligência é substituída pela tendência, o discernimento pelo modismo.

Esse processo gera um ciclo perverso: menos pensamento crítico, mais alienação, mais injustiça, mais consumo de superficialidade.

O sistema se retroalimenta. O preço é altíssimo.

Uma sociedade que não pensa e uma sociedade que não se protege.

E nesse cenário, a idolatria ao superficial não é inofensiva. Ela é funcional ao sistema. Forma um tipo de ser humano ideal, passivo, distraído, reativo, desinformado, viciado em dopamina, treinado para obedecer aos algoritmos e incapaz de sustentar uma ideia.

Quando chega o momento de decidir com o voto na urna, na criação dos filhos, nas escolhas éticas, o vazio cobra a conta. A distração não é neutra.

Tudo é representação. Não se vive, se assiste, não se participa, se consome.

Isto enfraquece a política, a crítica, a solidariedade.

O sujeito distraído é um sujeito desmobilizado, e isto interessa não só aos algoritmos, mas ao poder.

A cultura da distração é uma cultura sofisticada. Enquanto brigamos nas redes sociais, as estruturas permanecem intocadas.

A energia que poderia gerar ruptura é dissipada em debates irrelevantes, escândalos fabricados e rivalidades tóxicas.

Nietzsche via na dúvida um sopro de vida.

Pensar é romper com o conforto, é suportar a angústia, é perder certezas, mas é também a única chance de liberdade.

A burrice se apega ao dogma, a autoridade ao senso comum, porque ali está o repouso. Apesar do ruído, ainda existe silêncio.

Apesar da distração, ainda existe a tensão. Apesar do vazio, ainda existe sentido.

Mas o sentido está morto, não brilha, não contamina, não aparece na vitrine. O sentido precisa ser buscado.

O valor verdadeiro está na pesquisa, na leitura que transforma, na arte que incomoda, no pensamento que desinstala, na espiritualidade que não se vende.

Tudo isto exige disposição para o invisível. E tudo se perde na distração da repetição.

O sistema do mundo digital contemporâneo não pune a superficialidade. Ele a promove. O algoritmo e as Bigtchs temem, na verdade, o sujeito que para, que respira, que pergunta, que duvida, que resiste.

Esse sujeito, mesmo sozinho, já é perigoso porque resgata o poder de escolher com consciência, de dizer não; tem iniciativa e capacidade de criar e enfrentar.

Resgatar o invisível não é alienar-se do mundo, é transformá-lo de dentro, por dentro e assumir o desafio da transformação.

………………

Gilberto Motta, escritor, poeta, jornalista e pesquisador; aprendiz de raciocínios e reflexões no olho do furacão do Ponto de Mutação. Vive em uma pequena vila de pescadores na Guarda do Embaú-SC.

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2 Comentários
  • Do brilhante texto de Gilberto Motta, cito ‘” O sentido precisa ser buscado. O valor verdadeiro está na pesquisa, na leitura que transforma, na arte que incomoda, no pensamento que desinstala, na espiritualidade que não se vende.”
    Obrigada, Gilberto, pelo seu texto.

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