Os mistérios da natureza

Eduardo Martínez
9 minutos de leitura
Castro Oliveira - Foto Francisco Filipino

Cheguei tarde ao encontro.

Chovia muito ali perto da biblioteca da universidade.

O professor estava só, junto á entrada, fumando e bebendo café.

Falamos um pouco sobre o tempo e sobre o estado caótico da política portuguesa.

Essa extrema direita é igual á teoria do pobre de direita, são pessoas remediadas que votam neles só por atraso cultural ou por ressentimento…

Entramos na biblioteca.

Falamos então de outras coisas.

Rapaz, disse ele, vou-lhe falar daquilo que realmente importa, dos segredos da vida e dos mistérios da natureza.

Fiquei a ouvi-lo por entre a caminhada, estávamos envoltos no meio de livros e de muita cultura no ar.

Bem, vamos começar pela palavra maná:

A palavra maná tem origem nas palavras manas, mensch, mens e man, que significam o ser humano, o homem.

Estas palavras associam-se ao maná que caiu do céu, tal como o descreve a Bíblia Sagrada.

O que é que isto quer dizer simbolicamente?

Segundo a tradição mística ocidental isto quer dizer no fundo que o maná é o Espírito Humano que desceu do Pai do Céu, o princípio de unidade, para viver uma experiência de peregrinação através da matéria densa.

Logo, a Bíblia diz-nos que o ser humano tem como missão a descida a estados cada vez mais densos da matéria para dela extrair as experiências necessárias, isto é, para se conhecer a si mesmo e desta forma evoluir para estados mais aproximados com a ascensão, estados mais subtis do espírito, ou seja, evoluir também espiritualmente vivificando as semente do divino que traz em si voltando á unidade.

O pote de ouro do maná, segundo a tradição mística ocidental, quer também dizer o corpo-alma que resplandece. Este pote de ouro é onde se conserva o maná, é o seu lado mais luminoso.

Quando a Bíblia Sagrada nos fala do pão, podemos por exemplo ir ao capítulo 6 do Evangelho de São João e lá verificar o relato de como o Cristo alimentou uma multidão com pão e peixes.

Esta passagem simbólica significa segundo a tradição mística ocidental que se iniciava ali uma nova era, uma era que duraria dois mil anos que é a era de Peixes pois durante esse tempo e por precessão dos equinócios o sol ia passando pelo signo de Peixes. Daí a simbologia deste signo estar ligada à religião católica, veja-se por exemplo a indumentaria de um bispo cuja mitra se parece com um peixe sobre a cabeça do sacerdote.

Ensinar-se-ia á humanidade daquele tempo o valor da frugalidade na alimentação nomeadamente de não se usarem as tradicionais panelas cheias de carne, típicas do tempo do Antigo Egipto e da Antiga Atlântida, comendo-se peixe pelo menos á sexta-feira ou na quaresma antes da Páscoa.

Esse pão da Vida, ou maná, no fundo, e Cristo ensinou-o, é o Ego. Vemos esta explicação por exemplo nos versículos 33 e 35 onde é dito que “Porque o pão de Deus é aquele que desceu do céu e dá vida ao mundo… Eu sou (Ego Sum) o pão da Vida.” Este é o símbolo do Pote de Ouro do maná que se encontrava na Arca. Este maná é o Ego, a centelha que dá a vida aos organismos que vemos no mundo físico.

Esta Vida, este ego, está oculto em cada ser humano, é a sua Vida interior, pois tal como as árvores têm a sua seiva no interior, oculto ao exterior, que lhes dá a Vida natural, também o ser humano tem no seu interior a sua Vida mais pura sendo o corpo apenas um invólucro temporário através do qual adquire as experiências necessárias à sua evolução.

Já o Pote de Ouro significa simbolicamente, e segundo a tradição ocidental mística, o “traje de bodas”, o corpo-alma de que falam os rosacruzes, a pedra filosofal que o alquimista engole para alcançar a imortalidade, isto é, depois de passado as nove iniciações menores, esse corpo-alma deve-se fazer crescer através da correta ação, do correto sentimento e do correto pensamento, privilegiando o altruísmo em vez do egoísmo.

Este “traje de bodas”, veja-se como os antigos escreviam de forma simbólica de modo a atrair as pessoas já iniciadas nos mistérios não se referindo em sentido literal pois isso era para as interpretações dos profanos, está latente em todos e “é a casa não feita com as mãos” eterna nos céus, tal com o apóstolo Paulo se refere na sua Epístola aos Coríntios (II, Coríntios 5).

Já a Vara de Araão era a vara dos magos, era a lança sagrada de que nos fala a lenda de Parsifal musicada por um iniciado rosacruz Richard Wagner, era no fundo, como demonstra o ciclo do Graal, a coluna vertebral por onde circula a vitalidade até alcançar o cérebro, o Graal, o caldeirão mágico dos celtas etc, sendo que o cálice demonstra o crânio e a lança de Longines que deu origem ao derrame de Jesus é a mesma coluna vertebral, veja-se como através de símbolos e alegorias se podem falar discretamente de fenómenos místicos.

No tempo das ordenações Afonsinas, e Portugal, tínhamos a “vara dos juízes” que veio dessa lança, e mesmo o bordão era no fundo o protótipo do báculo episcopal, símbolos de autoridade, têm um simbolismo fálico daí ser também um símbolo paternalista e de autoritas onde a “vara” (autoridade paterna) em tempos remotos era transmitida ao filho “varão” pela qual a progenitura ficava garantida.

A vara de Araão que floresce quer dizer que ela é um símbolo da divina força criadora que faz milagres naturais, não pode ser usada para fins egoístas, só para curar. Simboliza a força kundalini que serpenteia ao longo da coluna vertebral composta por 33 vértebras, igual ao número dos anos de Jesus quando partiu e igual aos 33 graus do Rito Escocês Antigo e Aceite na maçonaria. O desenvolvimento dessa vara (coluna) vem pelo aperfeiçoamento moral, intelectual e espiritual ao longo dos vários veículos que compõe o ser dando-lhes o melhor tratamento possível com a prática e bons hábitos para o corpo físico, corpo vital, corpo de desejos e mente.

Parsifal quando escapou á tentação libidinosa de Kundry readquiriu a lança sagrada que havia sido roubada pelo mago negro Klingsor aos cavaleiros do Graal. Logo a seguir Parsifal viajou pelo mundo buscando novamente o castelo do Graal e a certa altura diz-nos que:
“Com frequência fui penosamente acossado pelos inimigos e fui tentado a usar a lança em defesa própria porém eu sabia que a lança sagrada não devia ser usada jamais para ferir mas unicamente para curar.”

Essa é a atitude de todo aquele iniciado que quer desenvolver em si mesmo a Vara de Araão, privilegiar o altruísmo que traz sempre felicidade em detrimento do egoísmo que normalmente só traz tristezas.

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