Manhã de domingo. Matheus segue para a igreja.
Sobe a escadaria da estação, desce e entra no trem-subúrbio. Centenas esperam entre cotovelos na plataforma.
Mete o fone no ouvido e ouve:
“Os teus lados da janela / E as cores que passam vivas / de algum lugar / lugar onde existe na memória”
O determinado rapaz caminha e luta entre os pares. Está no interior do trem.
Dá de cara com a mulher sem pernas e ajuda. Olha pro lado e enxerga um homem babando quase caindo. E ajuda. Levanta os olhos e a garotinha vem lhe vender balas – e ele compra dez por cinco -, e depois pensa:
“O que estou fazendo aqui, mãe?”
“Tudo, filho, tudo filho”
Balanço e o trem lotado.
Suores e sovacos em riste,
E nada assossega aquela gente.
Balança e balança e sente.
O trem parou.
O cara da bíblia seguiu o rumo. A igreja
Entrou e foi até à frente. E disse ao pastor:
“Pastor, dificuldades na vinda. Trem lotado e difícil”
O pastor apenas lhe disse para sentar ali.
Matheus vinha lendo a Bíblia há tempos.
E percebendo algumas incoerências nas mensagens clássicas.
Súbito, levantou-se e disse ao pastor:
“Pastor, permita-me, mas isso tudo é injusto. Vivemos como gado e só sofremos?”
O pastor ficou fera e respondeu:
“Não tens a fé… perdeste o amor do coração da fé em tua luz!”
Matheus esperou o culto terminar e ele voltou pra casa.
Pegou o trem-subúrbio e na manhã seguinte jogou a Bíblia no canto da casa e foi trabalhar.
Tempos depois, Matheus virou um líder dos trabalhadores do ABCD e se elegeu Deputado Estadual.
Foi preso e torturado pela ditadura.
Sobreviveu.
Matheus está vivo e é meu caríssimo amigo.
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Gilberto Motta é escritor, poeta, jornalista e pesquisador. E não esquece a ditadura, não. Vive na Guarda do Embaú-SC.


Em memória dos torturados, sem anistia para os torturadores e entreguistas da pátria brasileira.
Pequeno conto escrito lá nos finais dos anos 70 – ditadura ruindo sob o chicote do general Figueiredo.
Pequeno conto, imensas e tristes histórias que não podem ser esquecidas.