Há uma velha máxima de oficina que atravessou gerações sem precisar de filósofo grego, profeta bíblico ou doutor em ciência política para explicá-la. Trata-se do movimento de um parafuso comum, que se aperta girando para a direita e se afrouxa girando para a esquerda. Em inglês, a brincadeira ganhou até uma rima: righty-tighty, lefty-loosey. Ou seja, direita aperta; esquerda solta.
Não consta que Aristóteles tenha passado seus dias apertando parafusos em Atenas e tampouco há notícia de Moisés descendo do Sinai carregando, além das Tábuas da Lei, uma chave de fenda. A frase pertence muito mais às oficinas, às caixas de ferramentas e ao folclore mecânico do que aos livros sagrados.
Mas eis que, na reta final dessas eleições, a política resolveu descobrir a ferramenta. A campanha de Flávio Bolsonaro e seus aliados entrou abertamente na disputa pelo chamado voto útil. A estratégia consiste em convencer eleitores que preferem outros candidatos de direita ou centro-direita a antecipar, para o primeiro turno, uma escolha que eventualmente fariam apenas numa segunda rodada contra Lula. Flávio já fez pessoalmente esse apelo, enquanto aliados como Tarcísio de Freitas, Tereza Cristina e Rogério Marinho também defenderam a concentração de votos.
Até setores do Novo começaram a se movimentar. Candidatos da legenda declararam apoio a Flávio Bolsonaro ainda no primeiro turno, com autorização de Romeu Zema para manifestações individuais, segundo noticiou a CNN Brasil. Tarcísio também passou a falar publicamente na união das candidaturas de direita nessa reta final.
É nesse ambiente que a velha chave de fenda ganha inesperada utilidade eleitoral, não como ciência e muito menos como profecia, mas como propaganda.
O argumento que circula entre apoiadores pode ser resumido numa imagem simples: se a intenção é voltar com determinada estrutura política apertada mas liberal, gire para a direita; se girar para a esquerda, ela afrouxa e pode desabar o que vier pela frente. Trata-se de um trocadilho, é verdade, porque parafusos obedecem à mecânica, e eleitores, felizmente, não.
Mas campanhas eleitorais adoram frases que cabem num para-choque, numa figurinha de WhatsApp ou numa conversa de botequim. Quanto menos palavras forem necessárias para transmitir uma ideia, maiores as chances de ela viajar. E o voto útil vive exatamente disso, já que sua lógica não pergunta necessariamente ao eleitor qual candidato representa integralmente suas convicções. A pergunta é outra: diante da matemática eleitoral, em quem concentrar o voto para aumentar as chances do resultado pretendido? Os aliados de Flávio tentam colocar essa questão sobre a bancada da oficina.
Na rodada Datafolha divulgada em 24 de setembro, Lula aparecia com 40% das intenções de voto e Flávio Bolsonaro com 36%. Outros candidatos continuavam reunindo parcelas do eleitorado capazes de ter importância na aritmética do primeiro turno. Veio daí a ofensiva.
Para os estrategistas de Flávio, cada eleitor de direita que permanece com uma candidatura menor representa um parafuso que ainda não foi apertado na engrenagem principal. Para essas outras candidaturas, naturalmente, a história pode ser contada de maneira oposta, porque voto útil também significa abandonar projetos políticos próprios antes que as urnas lhes deem a oportunidade de medir sua verdadeira dimensão.
Há ainda outro detalhe que impede transformar oficina mecânica em ciência eleitoral, uma vez que o outro lado também procura sua chave de fenda. A campanha de Lula igualmente busca votos úteis e eleitores hoje posicionados em candidaturas menores. Portanto, a batalha dos últimos dias não é monopólio de direita ou esquerda. Os dois principais polos procuram reduzir o espaço disponível aos adversários e ampliar suas próprias bases antes da abertura das urnas. A diferença é que, no campo bolsonarista, a metáfora mecânica cai como uma luva, transportando para a imagem de uma chave na cabeça do parafuso.
Faltando poucos dias para a votação, o eleitor talvez descubra que a eleição brasileira virou uma gigantesca oficina. É fácil observar que de um lado tem gente apertando, e do outro, gente tentando impedir que apertem. Já no meio, candidatos menores pedindo que ninguém desmonte suas máquinas antes da hora. Porém, diante da bancada está o eleitor, único mecânico autorizado constitucionalmente a decidir o que continua montado e o que será desmontado. Como a chave está na mão dele, no domingo, 4, cada um decidirá para que lado deseja girá-la.
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José Seabra é CEO fundador de Notibras

