A sete dias do dia em que finalmente conheceremos o futuro presidente da República Federativa do Brasil, as casas de apostas que se mantêm abertas já começam a receber bolões sobre quem sobrará para manter as dinastias polarizadas à direita e à esquerda e quem vai mandar de verdade no Brasil. Não sou astrólogo, não disponho de bola de cristal e não tenho vocação alguma para produzir consultas duvidosas junto à duvidosa população. No entanto, mantenho contatos respeitosos, honestos, sérios e diários com “Cidinha”, a minha, a sua, a Nossa Senhora Aparecida.
Mesmo ao largo e distante do jogo político, Ela e todos nós sabemos que, ainda que use a força, dificilmente o vencedor conseguirá representar todo o povo brasileiro. Isso quer dizer que, belicismo e despotismo à parte, a governança permanecerá como perfumaria vencida. Se, de um lado, o mais importante é sustentar a plenitude da democracia, de outro a ordem será tentar mostrar aos “desgovernados” que, duela a quien duela, o vitorioso é quem manda. Ou seja, pelo andar da carruagem continuaremos na mesma.
Tudo por conta dos conceitos ideológicos de intolerância à direita e à esquerda, alguns muito antigos e cada vez mais estúpidos. E o que fazer para ajudar um povo que não é solidário nem no câncer? Nada, pois comprovadamente ele não foi na hora da morte e também não será no momento da descoberta de que o mundo bom é aquele em que, independentemente da cor, do credo, da ideologia e da condição social, as pessoas podem e devem ter opiniões próprias e distintas. É assim em qualquer lugar do mundo moderno.
Tinha – e tenho – como ideal de vida entender que não comungar das mesmas ideias do vizinho não significa necessariamente ser seu inimigo. No Brasil do mês passado, da semana passada, de ontem e de anteontem era assim. No de hoje, o risco de ser apedrejado e até morto com uma facada por um “desafeto” político é iminente. Lamentavelmente, no de amanhã provavelmente não será mais possível escrever a história de alguém sem as pinceladas nocivas da ideologia. É a ignorância se eternizando no poder.
Como faço desde muito jovem, vivo a política, mas não faço dela a minha prioridade de vida. Muito pelo contrário. Há coisas bem mais prazerosas e menos perigosas do que brigar e matar por políticos que não nos conhecem e, se perguntados, não fazem questão alguma de nos conhecer. Por isso, apegado ao manto sagrado de “Cidinha”, mantenho na linha de frente a certeza de que, representado ou não pelo vencedor de domingo, minha vivência na política é igual ao disco de vinil.
Em outras palavras, entro e saio bem de qualquer lugar porque carrego na mente o mantra ecumênico de que a gente só escuta tudo quando escuta os dois lados. Sabedor de que o ferro só se malha enquanto ele está quente, precisei viver para crer. Vivi e ainda não consegui dissipar metade de minhas dúvidas. Por exemplo, sinceramente não sei quantos sobrarão do lado perdedor para manter viva a história política de sua corrente partidário-ideológica.
Como só sei que nada sei, melhor esperar para ver se o vencedor realmente vai governar como prometeu. Desde já me associo àqueles cujo principal temor é que o resultado eleitoral do dia 25 reconfigure a política brasileira e reduza a força das lideranças ainda capazes de conter a sanha de antidemocratas que certamente nos levarão à bancarrota. Enquanto aguardo, o que posso afirmar é que, terminada a apuração aqui em casa, o resultado é o mesmo há pelo menos quatro décadas: Minha mulher vai continuar mandando por mais quatro anos, no mínimo.

