Em junho de 2013, um aumento de R$ 0,20 na passagem de ônibus em São Paulo levou milhares de pessoas às ruas. Em poucos dias, a pauta deixou de ser o transporte. Virou saúde, educação, corrupção, gastos da Copa. O cartaz que resumiu aquele mês dizia: “Não é só pelos 20 centavos.” Era o primeiro aviso de que algo tinha se rompido entre o governo e a população.
O governo não ouviu. Um ano depois, Dilma Rousseff foi reeleita com 51,64% dos votos contra 48,36% de Aécio Neves, a disputa mais apertada desde a redemocratização. Ganhou a eleição, mas não ganhou o país.
Em fevereiro de 2015, perdeu a presidência da Câmara para Eduardo Cunha. A Lava Jato, iniciada em março de 2014, avançava sobre a Petrobras. A economia, que tinha sido sustentada até a eleição, desabou: o PIB caiu 3,5% em 2015 e 3,3% em 2016, e a inflação de 2015 passou de 10%. Em abril de 2016, a Câmara autorizou o impeachment por 367 votos. Em agosto, o Senado confirmou, por 61 a 20.
O filme se repete?
Doze anos depois, há semelhanças que o eleitor não deveria ignorar.
A primeira é o Congresso. Dilma governou com uma base que existia no papel e se desfez na primeira crise. Quem assumir em 2027 vai encontrar algo mais claro: o PL saiu das urnas com a maior bancada da Câmara, com 121 deputados, e do Senado, com 28 senadores. Os partidos de direita mantêm 276 das 513 cadeiras da Câmara. Um presidente do PT reeleito por margem estreita governaria com um Congresso que, desta vez, já chega na oposição.
A segunda são as investigações. Em 2014, a Lava Jato rondava o governo. Hoje, a Polícia Federal investiga o entorno do Planalto em mais de uma frente: os descontos ilegais de aposentados no INSS, o caso Master e as mensagens da lobista Roberta Luchsinger envolvendo o filho do presidente e um ex-chefe de gabinete de Lula. Ninguém foi condenado, e todos negam. Mas a história ensina que investigação sem desfecho vira crise política no segundo mandato, não no primeiro.
A terceira é a economia. O mercado projeta, no Boletim Focus desta semana, inflação de 5,22% para 2026, acima do teto da meta, com juros a 13,25% ao fim do ano e crescimento de apenas 1,83%. Não é a recessão de 2015. Mas é um país que cresce pouco, paga juros altos e sente o preço no supermercado, exatamente o terreno onde, em 2013, vinte centavos viraram uma revolta.
As diferenças
Para ser justo, 2026 não é 2014. Lula tem uma habilidade de negociação com o Congresso que Dilma nunca teve. A economia cresce, ainda que pouco, e não está em queda livre. E impeachment não é instrumento para derrubar presidente impopular, porque exige crime de responsabilidade comprovado e dois terços do Senado.
Mas a lição de 2014 continua de pé. Um presidente reeleito com o país rachado ao meio, um Congresso contrário e investigações batendo à porta não começa um novo mandato. Começa uma longa crise. O Brasil já viu esse filme, e o final custou dois anos de recessão, milhões de empregos e uma década de polarização.
Antes da urna
Em 2013, o aviso veio das ruas, e o governo preferiu não escutar. Em 2026, o aviso veio das urnas do primeiro turno: Flávio Bolsonaro chegou na frente, e o Congresso eleito virou à direita. A pergunta para domingo é se o país quer repetir 2014, com uma vitória apertada seguida de quatro anos de paralisia, ou se quer um presidente que já começa o mandato com maioria para governar.
Não é só pelos 20 centavos. Nunca foi.

