Faz algumas semanas, Notibras replicou o resultado de uma assustadora pesquisa sobre a memória do povo brasileiro. Na verdade, a falta de memória. De acordo com os dados, apenas 23% dos eleitores afirmam lembrar em quem votaram para os cargos de senador, deputados federal, estadual e distrital. Ou seja, considerando os 10% que se abstiveram, 67% não têm a menor ideia de quem os representam, muito menos de suas responsabilidades. Elegem qualquer um e que se dane o país. São eles que palpitam sobre o Brasil do futuro.
A ideia passada por esse tipo de eleitor é que, muitas vezes, ele escolhe o candidato por impulso, emoção, troca de favores ou pelo voto de cabresto ou de amizade. Isso quer dizer que as propostas e o histórico dos escolhidos não fazem diferença ou, na pior das hipóteses, não têm nenhuma importância. Triste, mas real para quem, como eu, vota pensando exclusivamente no crescimento da nação e no bem-estar da população.
Diante da luz amarela e de nada no fim do túnel, a constatação mais cruel é de que, pelo menos em tese, são os mesmos que elegerão 513 deputados federais, 54 senadores e centenas de deputados estaduais e distritais. Deliberado, contemplativo, déficit de atenção ou apenas um lapso neurológico, o “esquecimento” gera uma matemática das mais simplórias: se eu não sei em quem votei, de quem devo cobrar pela solução das mazelas de minha cidade, de meu estado, de minha região? Obviamente que de ninguém.
Aportuguesando a matemática, quem vende ou vota sem critério frequentemente esquece em quem votou, perdendo o poder moral, ético e prático de exigir melhorias dos políticos eleitos. Os mais preocupados com a possibilidade de falência múltipla da política nacional avaliam esse lamentável contexto como falta de consciência eleitoral. Infelizmente, é o que a maioria dos brasileiros aptos a votar não tem. Conforme informações do Tribunal Superior Eleitoral, 158,7 milhões poderão votar nas eleições de 2026.
Historicamente, boa parte desse total foge de seus compromissos cívicos. Comprovadamente, os demais votam em quem, demagogicamente, oferece melhores vantagens econômicas, financeiras ou profissionais. Como normal e rapidamente os eleitos se esquecem de quem os elegeu, a recíproca acaba sendo verdadeira. Eis a principal razão para o tal “esquecimento” do eleitorado em relação a seus representantes. É um transtorno para quem votou de forma honesta e consciente de que o voto sério é uma arma contra a corrupção, além de uma expressão de liberdade e, principalmente, de responsabilidade.
Em síntese, é a ferramenta mais poderosa da democracia para transformar a sociedade e garantir deputados e senadores corretos ou menos corruptos. Como não tenho intenção alguma de desqualificar os chamados eleitores inconscientes, prefiro acompanhar sociólogos de debatedores do tema, para os quais o problema não é a incapacidade do povo, mas a desinformação política, a falta de educação cidadã e a desmemória do eleitor, cuja maioria não acompanha o mandato do candidato após o fim da eleição.
Que seja isso. O problema é que, em decorrência da ausência de critérios e de bons argumentos, a expressiva parcela que vota inconscientemente elege deputados e senadores descompromissados com as causas do povo e com predominância para a incompetência legislativa. Só são competentes quando chamados a dividir o dinheiro que não lhes pertence. O problema maior é que a dor pela confusão eleitoral de milhares de eleitores acaba doendo no bolso de milhões de brasileiros. Ainda é tempo de solução. A principal delas é não eleger aqueles que nada fizeram pelo país desde a eleição de 2022. Pesquisem. É fácil. Fora os parasitas e vendilhões da pátria.
……….
Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

