Flávio e Lula fazem debate de orações e aplausos irônicos sem ter motivos

Redação
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João Zisman - Foto Reprodução/Band

A Band preparou o palco, colocou os dois candidatos frente a frente e ofereceu uma oportunidade que o eleitor esperava havia semanas. Lula e Flávio Bolsonaro tinham tempo, liberdade para perguntar e uma coleção de assuntos importantes para discutir. O problema começou quando resolveram usar boa parte dessa liberdade para trocar acusações, provocar um ao outro e fazer um espetáculo que, em determinados momentos, chegou a dar vergonha alheia.

As entrevistas individuais dos dias anteriores haviam deixado uma porção de perguntas sem respostas. Era razoável imaginar que o encontro direto pudesse esclarecer algumas delas, até porque um candidato teria a oportunidade de cobrar do outro aquilo que os jornalistas não conseguiram arrancar. Mas a expectativa durou pouco. O primeiro bloco virou um bate-boca, com os dois se engalfinhando verbalmente, interrompendo, ironizando e demonstrando uma disposição enorme para acusar, mas bem menor para explicar.

Lula começou perguntando a Flávio por que havia votado contra a ampliação da licença-maternidade quando era deputado estadual. O senador falou da esposa, das filhas e, sem explicar propriamente o voto, puxou Roberta Luchsinger para a conversa. Pronto. A partir daí, apareceu de tudo um pouco: Lulinha, Eduardo Bolsonaro, fraudes no INSS, Banco Master, Daniel Vorcaro, o filme sobre Jair Bolsonaro e uma quantidade de suspeitas que daria assunto para vários programas policiais. Só faltava alguém lembrar que a eleição é para presidente da República.

Houve momentos de graça, embora nem sempre de bom gosto. Flávio resolveu brincar com a palavra “corrupto” para associar duas letras ao PT. Lula, provocado sobre os votos recebidos entre presos, respondeu que gostaria de receber todos, inclusive o de Jair Bolsonaro. Entre uma ironia e outra, sobraram acusações de mentira, insinuações sobre familiares e perguntas que iam sendo abandonadas conforme aparecia uma provocação mais conveniente. O eleitor que tentasse acompanhar o raciocínio precisava fazer um esforço considerável para lembrar qual era o assunto original.

Em determinado momento, Lula desafiou Flávio a abrir informações bancárias e telefônicas, incluindo as de familiares, oferecendo-se para fazer o mesmo. Era uma oportunidade de transformar a conversa sobre corrupção em algo mais concreto. Flávio disse que não tinha nada a esconder, mas não assumiu expressamente o compromisso proposto. E assim o debate seguiu, com mais uma questão importante engolida pela discussão seguinte.

Não faltaram propostas. Flávio falou em endurecer o combate às facções, ampliar vagas nas prisões, investir em tecnologia e reduzir a maioridade penal para determinados crimes. Lula defendeu maior participação da União na segurança pública e insistiu nas medidas de seu governo. Na saúde, o presidente falou do SUS com a familiaridade de quem conhece sua estrutura, enquanto Flávio apresentou prontuário eletrônico, telemedicina e a promessa de levar um padrão de atendimento associado ao Hospital Albert Einstein à rede pública. Mas, quando a pergunta era de onde viria o dinheiro para ampliar os serviços, a conversa já não parecia tão desembaraçada.

Na economia aconteceu algo semelhante. Vieram promessas de crescimento, renegociação de dívidas, prosperidade e investimentos, mas faltaram explicações sobre custos, prazos e condições para tirar muita coisa do papel. A pergunta sobre produtividade, por exemplo, merecia uma discussão mais cuidadosa. Acabou cercada pelas generalidades de sempre.

Curiosamente, os melhores momentos para compreender as propostas surgiram quando Adriana Araújo e Eduardo Oinegue assumiram as perguntas. Os jornalistas colocaram problemas concretos na mesa e tentaram obter respostas objetivas. Quando os próprios candidatos passaram a perguntar, a prioridade frequentemente deixou de ser o assunto e passou a ser o constrangimento do adversário. Uma coisa é cobrar uma explicação. Outra é usar a pergunta como pretexto para começar uma nova briga.

Também houve uma disputa de comunicação. Flávio mostrou desenvoltura na movimentação pelo palco, procurou as câmeras e falou diretamente ao telespectador, mesmo quando se afastava da pergunta recebida. Lula, com sua experiência de orador, preferiu o enfrentamento direto, recuperou realizações de seus governos e insistiu em cobranças que, repetidas muitas vezes, acabaram perdendo força. Os dois encontraram maneiras de ocupar a televisão. Isso, naturalmente, não significa que tenham aproveitado o tempo para esclarecer o que realmente interessava.

A temperatura foi tão alta que os mediadores precisaram intervir até nas considerações finais, pedindo respeito ao tempo de fala e silêncio à plateia. É uma situação e tanto: dois candidatos disputando a Presidência da República e os apresentadores tendo de lembrar regras elementares de convivência para que cada um conseguisse terminar o que estava dizendo.

E o eleitor? Esse ficou com a parte menos divertida da história. Quem reservou a noite de domingo para assistir ao primeiro confronto direto, a uma semana da eleição, provavelmente esperava encontrar alguma coisa nova para pensar. Não sabemos quantos acompanharam tudo nem se o encontro mudou a opinião de alguém. Mas é difícil identificar, naquele amontoado de acusações e provocações, uma quantidade de esclarecimentos proporcional à expectativa criada.

As entrevistas individuais, com todos os seus problemas, permitiram conhecer melhor as posições dos candidatos. O debate, que deveria aprofundar essas diferenças, terminou oferecendo principalmente uma demonstração de como Lula e Flávio se comportam quando estão diante um do outro e precisam lidar com perguntas incômodas.

Talvez as campanhas tenham conseguido material de sobra para recortar, editar e espalhar pelas redes sociais nesta segunda-feira. Não faltaram frases de efeito, caretas, provocações e oportunidades para a militância comemorar algum lance. Mas uma eleição presidencial exige um pouco mais do que produzir cenas para o dia seguinte.

A Band entregou o debate que todos esperavam assistir. O que os candidatos fizeram com ele é outra história. E, para quem chegou à televisão querendo respostas, não foi uma noite muito proveitosa.

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