Lula fica com a ala magrinha e Flávio garante a fatia mais gorda do MDB

Redação
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Marta Nobre - Foto Divulgação

Enquanto dez diretórios estaduais abraçam o petista, Flávio Bolsonaro conquista o apoio de 17, incluindo os maiores colégios eleitorais do país. A balança emedebista pende para a direita, mas a divisão regional revela que a velha legenda continua especialista em manter um pé em cada canoa.

O MDB decidiu subir na balança da sucessão presidencial. E o resultado mostrou que, embora o partido continue dividido entre esquerda e direita, a porção mais robusta de sua estrutura política resolveu sentar-se à mesa do senador Flávio Bolsonaro (PL). Ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) restou uma fatia menor em número de diretórios, concentrada sobretudo no Norte e Nordeste, onde lideranças emedebistas preferiram renovar os votos de fidelidade ao petista.

A matemática é simples, embora a política raramente seja. Dos 27 diretórios estaduais do MDB, 17 anunciaram apoio a Flávio Bolsonaro, enquanto dez optaram por Lula. Em números proporcionais, o candidato do PL reúne 63% das representações estaduais da legenda, contra 37% alinhadas ao atual presidente.

Mas não é apenas na quantidade que Flávio leva vantagem. O peso político dos diretórios que aderiram à sua candidatura ajuda a explicar por que a cúpula emedebista resolveu oficializar, em São Paulo, o apoio majoritário ao senador.

Sob a liderança do presidente nacional do MDB, deputado federal Baleia Rossi, a ala favorável a Flávio reúne São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, os três maiores colégios eleitorais do Brasil. Acrescentam-se Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina e Espírito Santo, formando um bloco de expressiva densidade eleitoral.

No Centro-Oeste, a adesão também é significativa. Distrito Federal, Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul estão integralmente na relação dos diretórios que preferiram Flávio. A lista é completada por Rio Grande do Norte, Sergipe, Amapá, Acre, Tocantins e Roraima.

É uma composição que dá ao candidato bolsonarista não apenas maior presença territorial na estrutura do MDB, mas também acesso potencial a importantes redes de prefeitos, vereadores, deputados, lideranças empresariais e operadores políticos. Do outro lado da mesa, Lula ficou com a ala numericamente mais magra, mas que não deve ser confundida com ausência de musculatura eleitoral. Os dez diretórios que declararam apoio à sua reeleição são Amazonas, Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Paraíba e Rondônia.

A Bahia, por exemplo, representa um dos maiores eleitorados do país, enquanto Pernambuco, Ceará, Pará e Maranhão possuem peso expressivo na composição do mapa político nacional. Portanto, a vantagem de Flávio na quantidade de diretórios não pode ser automaticamente traduzida em igual proporção de votos. Ainda assim, a distribuição geográfica evidencia uma tendência: a maior parte da estrutura emedebista do Sul, Sudeste e Centro-Oeste decidiu apostar na candidatura do senador.

Na nota divulgada nesta terça-feira, 13, os diretórios favoráveis ao presidente justificaram a escolha como um compromisso com a defesa “da liberdade, da democracia e da soberania do povo brasileiro”. O documento também resgata programas sociais associados às administrações petistas, como Bolsa Família, Farmácia Popular, Pé-de-Meia, Fies e ProUni. As lideranças destacam ainda indicadores de crescimento econômico, fortalecimento da indústria e expansão das exportações como argumentos para defender a continuidade do governo.

É uma manifestação de caráter político e programático, que procura apresentar Lula como representante da estabilidade institucional e da preservação das políticas sociais. O problema para o presidente é que, enquanto seus aliados enumeram realizações administrativas, a direção nacional do MDB vê uma parcela maior de seus diretórios caminhar na direção contrária.

A situação lembra um restaurante em que os convidados chegam juntos, mas escolhem cardápios diferentes. Lula permanece com uma mesa regionalmente concentrada. Flávio ocupa outra, com maior número de cadeiras e presença de dirigentes dos estados mais populosos. Naturalmente, a metáfora gastronômica tem seus limites. Diretórios partidários não são porções de votos servidas em bandejas. A transferência de apoio depende da capacidade de mobilização das lideranças, da identificação dos eleitores com os candidatos e das circunstâncias locais.

A divisão também revela uma característica histórica do Movimento Democrático Brasileiro: a extraordinária capacidade de conviver com interesses divergentes sem necessariamente romper sua estrutura nacional. O partido que atravessou a redemocratização, participou de governos de diferentes orientações ideológicas e construiu uma das maiores redes municipais do país continua demonstrando que a unidade partidária nem sempre significa unanimidade eleitoral.

Em determinadas circunstâncias, a legenda prefere preservar sua capilaridade regional a impor uma disciplina nacional que poderia provocar rupturas internas. É precisamente o que acontece agora. Baleia Rossi formaliza o apoio majoritário a Flávio Bolsonaro, enquanto dez diretórios anunciam publicamente que trabalharão pela continuidade de Lula no Palácio do Planalto. O MDB não desaparece de nenhum dos lados da disputa. Ao contrário, mantém presença nos dois campos, ainda que a distribuição de forças seja desigual.

Para Flávio, a adesão majoritária representa um reforço político importante na reta final do segundo turno, marcado para 25 de outubro. Para Lula, o apoio dos diretórios do Norte e Nordeste oferece estruturas regionais que podem ajudar a mobilizar eleitores em áreas tradicionalmente relevantes para o petismo. O desafio dos dois candidatos será transformar declarações partidárias em votos efetivos.

No fim das contas, a fotografia do MDB apresenta um partido dividido, mas com sua maior bancada de dirigentes estaduais inclinada à candidatura bolsonarista. Lula ficou com dez fatias do bolo emedebista. Flávio levou 17, incluindo as de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. A diferença é que, na política, o tamanho do pedaço nem sempre corresponde ao número de votos que ele pode render. E o velho MDB, fiel à sua tradição de sobrevivência, parece conhecer essa receita melhor do que ninguém.

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Marta Nobre é Editora Executiva de Notibras

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