Presidenciável da ala mais radical da extrema-direita e das igrejas evangélicas, o senador Flávio Bolsonaro (PL) realmente nunca disse que cassaria de Nossa Senhora Aparecida o honroso e bíblico título de Padroeira do Brasil. Ele não disse, mas disseram em seu nome e não houve qualquer manifestação do candidato ou de seu staff até que a confusão chegasse aos dois lados do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral. Chegou, incomodou e a reação só foi assuntada depois das críticas dos eleitores, notadamente dos católicos.
Ainda que não seja assumidamente evangélico, Flávio Bolsonaro posa como se fosse um deles. Tanto que nunca reagiu à pregação explícita dos chamados crentes contra o catolicismo. Além do silêncio consentido a respeito do manto de Nossa Senhora Aparecida, falta lembrar ao candidato um recente anúncio que ele mesmo antecipou a seus correligionários, aos quais afirmou que, caso eleito, decretaria “Jesus Cristo como o Senhor do Brasil”. Eis a razão pela qual os católicos continuam achando que vale o que está escrito.
Mesmo censuradas por autoridades judiciais que trocaram a toga pela militância, as mensagens contrárias à Santa ultrapassaram os limites dos currais eleitorais e alcançaram o topo da Igreja Católica, inclusive o Santuário daquela que os neopentecostais querem distância. Como quem cala consente, restam poucas dúvidas de que, sendo ele o vencedor da eleição do próximo domingo (04), a discussão sobre política e religião ficará limitada aos pentecostais e aos radicais. Os demais brasileiros que se mudem ou que, desde já, comecem a aceitar a pregação dos falsos profetas.
Considerando que a separação entre Igreja e Estado existe para proteger a liberdade de crença e não para silenciar a voz na política, concordo com a tese de que se eximir de discutir política ou religião abre espaço para a desinformação e para que outros decidam o futuro da sociedade. O problema é quando as duas se unem promiscuamente. Com todo respeito a políticos e a religiosos, mas essa leviana mistura não pode ser batizada de crença, muito menos de patriotismo. É melhor avaliá-la como ignorância.
É claro que, como ignorante com alguma inteligência, entendo como legítima a participação de religiosos na política. Minha discordância ocorre quando os políticos oportunistas se utilizam da fé para fins partidários e de dominação. É o que claramente fazem os parlamentares e governantes da direita e da extrema-direita. Eles nunca estiveram tão conectados com as igrejas que defendem de forma notoriamente mercantil. Eleitos para representar o povo, os profetas dos louvores esquecem desse detalhe e, depois de eleitos, passam a se “preocupar” exclusivamente com os evangélicos. O restante do eleitorado é resto.
A teoria vigente é de que o Estado brasileiro é laico, isto é, mantém uma separação oficial entre o governo e as instituições religiosas, não adotando nenhuma religião oficial e mantendo neutralidade em relação aos credos. Seria somente uma tese não tivesse Flávio Bolsonaro reagido de forma tão eloquente a uma simples postagem de um católico e, o que é mais grave, se determinados ministros do Supremo Tribunal Federal não tivessem transformado a suposta “cassação” de Nossa Senhora Aparecida em um referendo judicial. Diante da reação e da ação, é fácil concluir que somente os tolos acreditam que política e religião não se discutem.
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Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

