Na lógica da política, candidato ruim para muitos deve ser bom para alguns

Redação
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Armando Cardoso - Foto de Arquivo

Como faço desde a redemocratização do país, em 1986, em época eleitoral me converto em eleitor inteligente e, sem medo da resposta, me pergunto onde foi que eu errei. Na verdade, a indagação deveria ser mais objetiva, algo como por que não acerto nunca? É uma reflexão aparentemente sem nexo, mas coerente, na medida em que me cobro o vacilo quadrianual de não cumprir a jura de não votar mais em ninguém. Só percebo o ducentésimo erro quando, ao dormir, me lembro que eu mesmo escolhi o caminho do Condomínio do Pé Junto, aquele que revela que nosso futuro é aqui.

Atendendo às recomendações da letra de uma música do início dos anos 90, decidi experimentar drogas novas e menos mentirosas. Hoje, prefiro votar naquele que muitos acham ruim. Parto do pressuposto de que, se ele é ruim para tanta gente, deve ser bom para alguns. É a lógica da política brasileira. Até agora não me arrependi de minhas escolhas. Com base no tempo já vivido e na maturidade supostamente alcançada, decidi me reinventar. Idade da razão para alguns, os 40 anos é o momento exato para que pensemos no antes e, principalmente, no depois.

A letra da canção é justamente um amontoado de sugestões para quem está chegando aos 40 anos. Já passei bastante dessa fase quarentona, mas nada me impede de mais uma vez sonhar com o som do soul dos anos 60. A desobrigação de votar, consequentemente de cobrar as promessas do meu candidato, me dão a certeza de agir serenamente no presente, transformando em ação eventuais arrependimentos pretéritos. Rememorando os tristes anos de chumbo, me lembro dos obstáculos que pareciam impossíveis de superar.

Com coragem e muita vontade de mudar, superei quase todos os elefantes brancos. Os que ficaram podem novamente se tornar reais se não forem enfrentados. Por isso, seja quem for o presidente da República em 2027, eu estarei – e é bom que estejamos todos – atento para o Sermão da Montanha, discurso feito de improviso por Jesus Cristo. Ao ar livre, o Mestre proferiu lições de conduta e de moral, ditando os princípios que normatizam e orientam a vida cristã.

No trecho mais emblemático, Jesus lembra que a verdadeira justiça é para aqueles “inúteis”, pobres ou incômodos para uma estrutura de sociedade baseada na riqueza que explora e no poder que oprime. Tudo a ver com os tempos vividos pelos que preferem uma forma de viver mais autêntica e livre. Pouco conhecida, mas profunda, a canção Elefante Branco, composta por Ritchie, Vinícius Cantuária e Evandro Mesquita me obrigou a não repetir os velhos erros de nossos pais, aqueles que achavam que o que está ruim pode ficar pior.

Sem a necessidade de Rivotril, de fones para fugir das sirenes dos camburões, muito menos do clássico desejo de querer o que não me pertence, passei a entender que a derrota nada mais é do que um aprendizado. Vem dessa constatação a certeza de que deixei de ter medo da loucura, “do escuro da solidão e do Elefante Branco na contramão”. Tudo isso para afirmar que os perigos da existência já não me incomodam como antes. Pelo contrário. Na prática, as mudanças da vida se apresentam como um convite à liberdade, à coragem e à autenticidade. Simples como escolher bem, já pensando no futuro do Brasil varonil.

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Armando Cardoso é presidente do Conselho Editorial de Notibras

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