Narrativas e verdades sobre Lulinha podem esvaziar as urnas de Lula

Redação
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Aurélio Zanotti - Foto de Arquivo

Faltam seis dias. Nesta reta final, o eleitor indeciso não está escolhendo apenas entre candidatos. Está escolhendo entre duas maneiras de olhar o país: pela narrativa ou pelos fatos. Nos últimos anos, muitas manchetes contra a direita viraram verdade antes de qualquer investigação. Muitas delas terminaram no arquivo.

O ponto mais alto da narrativa veio com dois rótulos: fascista e genocida. Durante a pandemia, Bolsonaro passou a ser apresentado como responsável direto pelas quase 700 mil mortes de covid no país. A CPI da Covid pediu seu indiciamento. O caminho, porém, terminou longe das manchetes. Em 2022, a Procuradoria-Geral da República pediu o arquivamento de nove das dez petições contra ele, por falta de justa causa para uma ação penal.

E há um detalhe que o eleitor precisa saber: o atual procurador-geral, indicado pelo próprio Lula, não reabriu os casos, mesmo depois de ser cobrado por senadores. Se as provas fossem tão evidentes quanto o rótulo, quem teria mais interesse em levá-las adiante?

A dor das famílias que perderam alguém na pandemia é real e merece respeito. Justamente por isso, ela não deveria ter sido transformada em slogan de campanha.

Lembra da baleia? Bolsonaro foi investigado por importunar uma jubarte com um jet ski. O caso ocupou noticiários por dias. Em 2025, o próprio Ministério Público Federal arquivou o inquérito, por falta de prova de que houve intenção de importunar o animal.

Lembra do cartão de vacina? A acusação dominou o debate. Em março de 2025, a Procuradoria-Geral da República pediu o arquivamento, e o ministro Alexandre de Moraes arquivou a investigação contra o ex-presidente. O motivo: a acusação se apoiava apenas na palavra de um delator, sem provas que a confirmassem.

Lembra do porteiro do caso Marielle? Um depoimento colocou o nome de Bolsonaro no crime que chocou o país. O Ministério Público do Rio mostrou, pelo áudio do interfone, que quem autorizou a entrada do assassino no condomínio foi Ronnie Lessa, e não Bolsonaro. Os mandantes, os irmãos Brazão, foram condenados em fevereiro deste ano. Nenhum deles tinha relação com a família do ex-presidente.

Lembra da “fakeada”? Durante anos, circulou a tese de que a facada de 2018 teria sido encenada. Os registros médicos, as cirurgias e a faca com o perfil genético da vítima encerraram o assunto. A Polícia Federal concluiu que o ataque foi real e que Adélio Bispo agiu sozinho.

Agora, o caso mais recente: o Master. Aqui, a narrativa escolheu um filme. Dark Horse, a cinebiografia de Bolsonaro, recebeu recursos de Daniel Vorcaro, e o senador Flávio Bolsonaro admitiu ter pedido o dinheiro. O caso está sob investigação e deve ser explicado até o último centavo. Mas repare no que a narrativa faz: transforma um filme que nem estreou no retrato inteiro de um escândalo que vai muito além dele.

Desenhando o caso Master para o eleitor: No Planalto, mensagens do ex-advogado de Vorcaro, obtidas pela Polícia Federal, relatam articulações para aproximá-lo de Lula e dizem que o presidente teria agradecido por um uísque e mandado um abraço.

No Supremo, reportagens revelaram um contrato de R$ 129 milhões entre o Master e o escritório da esposa do ministro Alexandre de Moraes. O ministro Dias Toffoli, indicado por Lula, foi alvo de pedido de impeachment por sua conduta como relator do caso. Até um ministro indicado por Bolsonaro, Kassio Nunes Marques, entrou na mira, prova de que o caso não tem dono.

No Senado, o pedido para abrir a CPI do Master continua parado, e o STF negou a tentativa de obrigar sua instalação. No cinema, está um filme que ninguém viu.

E há uma pergunta que o eleitor tem o direito de fazer. Desde 2023, o Grupo Globo recebeu R$ 267 milhões em publicidade da Secretaria de Comunicação da Presidência. É o maior valor entre todos os grupos de mídia, mais que o dobro do segundo colocado. Ao mesmo tempo, poucos assuntos receberam tanta atenção quanto um filme que ainda nem estreou. Não se trata de acusar ninguém de vender a cobertura. Mas quem paga a maior conta de publicidade do país é o mesmo governo cujo gabinete aparece nas mensagens da Polícia Federal. O eleitor pode, e deve, perguntar por que o holofote ilumina o cinema com tanta força e o Planalto com tanta cautela.

Porque, quando a acusação muda de lado, o tom muda junto. As mensagens que a Polícia Federal recuperou no celular da lobista Roberta Luchsinger falam em dinheiro no porta-malas do Volvo, “tem que levar lá no Fábio” e “meu sócio é guloso”. Em outro inquérito, a lobista orienta um empresário a pagar salário de conselheiro ao filho do presidente e resume o método: “toma lá, dá cá”. Segundo a PF, ela também bancou R$ 217 mil em gastos pessoais do então chefe de gabinete de Lula. Para tudo isso, a resposta já está pronta: vazamento, perseguição.

É a mesma palavra de sempre. Durante anos, foi a explicação para as condenações de Lula na Lava Jato. O Supremo anulou os processos em 2021, por entender que a vara de Curitiba não era competente e que o juiz foi parcial. Mas anular não é absolver. Nenhum tribunal disse que os fatos não existiram. Os processos voltaram à estaca zero e acabaram prescritos. Lula não foi declarado inocente. Foi declarado mal julgado.

Nada disso coloca a direita acima da lei. Ela também tem contas a prestar, e a Justiça tem cobrado. Por isso mesmo, a régua precisa ser a mesma para todos. O que não pode acontecer é um lado ser condenado pela manchete e o outro ser absolvido pelo discurso.

O eleitor indeciso não precisa de adjetivos. Precisa de critério. Diante de cada acusação, pergunte: existe documento? Quem investigou? Como terminou? Quando a manchete vira arquivo, alguém deveria pedir desculpas. Quando a resposta é só “é perseguição”, desconfie.

Em 2018, uma frase atravessou o país e virou lema de campanha: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” Ela não pertence a um candidato. Vale para todos, e é justamente por isso que incomoda tanto quem vive de versões. No domingo, a urna não vai perguntar qual história você prefere ouvir. Vai perguntar em qual Brasil você quer viver: no das narrativas ou no da verdade. Olhe os autos antes de apertar o verde.

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Aurélio Zanotti é administrador de políticas públicas da área social

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