Sou do tempo em que a gente chamava o amigo ou o vizinho batendo palmas no portão. Ainda que separadas por uma parede, igrejas evangélicas e prostíbulos já tinham os mesmos objetivos econômicos. A diferença ficava restrita ao perfil dos frequentadores. As primas nada mais eram do que as filhas da minha tia ou do meu tio. Política era a continuação da ética e tratava apenas da vida pública do cidadão na cidade. O substantivo feminino excelência indicava a qualidade máxima, a perfeição ou o grau mais elevado de alguém ou de alguma coisa.
Sou do tempo em que os políticos faziam acordos pessoalmente. A troca de favores é histórica. No entanto, nessa época os acordos verbais eram realmente cumpridos, o aperto de mão tinha valor central para construir alianças e cobrar reciprocidade e, o que é mais importante, não havia espetacularização dos debates, muito menos a dependência das redes sociais. Decididamente, os tempos são outros. O mundo mudou, as pessoas mudaram, mas a essência de quem só vive para se servir permanece.
E permanecerá por pelo menos mais quatro anos. Entre os que só se servem, os políticos brasileiros lideram todos os rankings conceituais, profissionais e sociais. Tanto que faz algumas décadas eles são sucessivamente ligados à escândalos de corrupção. Por isso, merecidamente são os menos confiáveis do mundo. Apesar do desonroso título, deputados e senadores fazem qualquer negócio para serem chamados de excelência. Com base em que qualidade ou atributo? Um dia, quando puder, se puder, eu conto.
A percepção óbvia de que os políticos e as instituições que os abrigam perderam o respeito público reflete um debate frequente sobre a crise de credibilidade e o tom dos conflitos entre os poderes no Brasil. A atual crise do Supremo Tribunal Federal e a necessidade de o Parlamento cobrar dos homens e mulheres de toga condutas exemplares evidencia o contraste entre os que temporariamente não servem ao país e aqueles que diariamente se servem da nação. É o tal embate em que o sujo esculhamba o mal lavado e nenhum deles consegue sair limpo.
São esses constantes atritos alimentados pelos sedentos e eternos candidatos a excelências que, além de estimular a polarização ideológica, contribuem para o desgaste da imagem pública das autoridades dos Três Poderes. E tudo ao vivo, em cores e em rede nacional. Do topo da credibilidade, hoje os ministros do STF amargam o fundo do poço. A falta de respeito que grassa nas disputas internas e externas pelo poder chegou às pessoas comuns, as quais votam em nome do que acham, do que ouvem e não do que sabem. Isso contribuiu para o resultado do primeiro turno eleitoral, quando o ser humano se posicionou contra o ser humano. Venceu a desunião, a mentira ensaiada e a falácia para enganar pobres.
Essas pessoas votaram em determinado político no primeiro turno da eleição de 2026 porque ouviram de um pastor que o adversário é a favor do demônio e vive associado ao mal. Tudo indica que, para o segundo turno, de nada adiantará informá-las do contrário. O líder religioso charlatão e grande manipulador de consciências chegou primeiro. É o sinal de que a fila do osso foi ao fundo do poço. Para os que aceitam esse tipo de intromissão eleitoral, tudo é uma questão de oportunidade pessoal e não de perspectiva nacional. E o que dizer a quem vota desse modo? Nada além de tudo o que já foi dito: O Brasil só vai melhorar no dia em que o povo entender que votar bem e com consciência é o primeiro passo para que todos os brasileiros deixem de ser escravos dos maus políticos. O voto mal dado acaba dividindo as consequências. Todos pagam.
Com esse quadro e com o atual perfil do eleitorado brasileiro, nem é tão absurdo recebermos a notícia oficial de que os evangélicos e simpatizantes são os novos donos do Congresso Nacional. Pior do que isso só alguém conseguir esquecer que Valdemar Costa Neto (futuramente Valdemar I) é hoje o político mais poderoso do Brasil. Mesmo sabendo que vou sofrer críticas da trupe valdemariana, aquela que só aceita reclamações dos Bolsonaro I, II, III, IV e V, maior e mais poderoso do que ele só Donald Trump, o único para todos eles. Juntos, será uma brincadeira de criança cumprir a promessa de rasgar a Constituição. O problema é que a conta aceita pelos crédulos e pelos ingênuos será cobrada principalmente dos céticos e dos coerentes, aqueles que costumam votar em quem verdadeiramente vai representá-los.
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Misael Igreja é analista de Notibras para assuntos políticos, econômicos e sociais

