Da pizza simples ao quibe, da carne de sol ao tambaqui, casas tradicionais revelam uma cidade formada pela mistura de brasileiros que chegaram de todos os cantos do país. É que Brasília não nasceu com uma culinária própria no sentido convencional. Fez algo talvez mais interessante: reuniu cozinhas.
Mineiros, goianos, nordestinos, gaúchos, cariocas, paulistas, nortistas e estrangeiros chegaram ao Planalto Central trazendo sotaques, panelas, temperos e receitas. Décadas depois, essa mistura ajuda a explicar por que comer em Brasília também significa conhecer a própria história da cidade.
Alguns restaurantes são testemunhas privilegiadas dessa trajetória. O Restaurante Roma é praticamente contemporâneo ao nascimento da capital — na verdade, começou a funcionar poucos dias antes da inauguração oficial de Brasília. A casa atravessou as décadas mantendo viva a memória da W3 Sul dos tempos em que a avenida era uma das grandes vitrines comerciais da cidade. Seu filé à parmegiana tornou-se um clássico.
Há também o Bar Beirute, inaugurado em 1966 na Asa Sul. Chamar o Beirute apenas de restaurante seria reduzir seu papel na história brasiliense. Mesas, chope, quibes e conversas ajudaram a transformar a casa em ponto de encontro de gerações. Seu cardápio árabe convive, curiosamente, com um dos pratos mais associados à casa: o brasileiríssimo filé à parmegiana. Essa é Brasília, onde o Oriente Médio encontra a boemia do Cerrado e ninguém parece estranhar.
Outra expressão dessa mistura é o Xique Xique Asa Sul: Carne de Sol, Happy Hour, Eventos, Delivery DF. Aberto originalmente em 1979, tornou-se referência da culinária nordestina na capital. Carne de sol, baião-de-dois e acompanhamentos generosos contam uma parte fundamental da história de Brasília: a contribuição dos milhares de nordestinos que ajudaram a construir e povoar a cidade.
E há restaurantes que transformaram justamente essa diversidade brasileira em conceito gastronômico. O Dom Francisco Restaurante | 402 Sul nasceu em 1988. Francisco Ansiliero reuniu no cardápio pedaços de sua própria trajetória: a picanha remetendo ao Sul, o tambaqui à passagem pela Amazônia e o bacalhau à convivência com portugueses. A casa acabou se tornando uma das referências gastronômicas da capital e construiu também forte tradição em vinhos.
Uma cidade dentro do prato seja, talvez, a a verdadeira cozinha brasiliense. Ela não precisa escolher uma única origem. Brasília é onde o executivo pode almoçar peixe amazônico, o servidor público pedir carne de sol, o estudante dividir uma pizza e, no fim da tarde, jornalistas, políticos, artistas e anônimos se encontrarem diante de um quibe e uma cerveja gelada.
Sua gastronomia reproduz o desenho humano da capital e é múltipla porque Brasília também é. Os monumentos de Oscar Niemeyer contam uma parte da história. A Praça dos Três Poderes conta outra. O Eixão, as superquadras e o Lago Paranoá ajudam a completar o retrato.
Mas existe uma Brasília que não está no concreto. Está nas mesas. E talvez algumas das histórias mais saborosas da capital tenham sido escritas não com tinta, mas com molho, farinha, azeite, carne de sol, quibe, peixe e vinho. Histórias que, felizmente, podem ser devoradas.

