Há quem conte os dias para receber o salário, quem espere ansiosamente pelas férias e quem não veja a hora de chegar o fim de semana. Mas existe uma turma que começa a sentir o gostinho da sexta-feira ainda na quinta, quando o pensamento abandona discretamente as obrigações e desembarca diante de uma panela fumegante de feijoada. É o famoso “sextou” batendo à porta, trazendo consigo um convite quase irrecusável: reunir os amigos, puxar uma cadeira e celebrar a vida ao redor de uma boa mesa.
A feijoada, um dos pratos mais emblemáticos da culinária brasileira, tem essa capacidade extraordinária de transformar uma simples refeição em acontecimento social. Não é comida para ser devorada às pressas, entre uma reunião e outra. Exige tempo, conversa, apetite e, sobretudo, disposição para esquecer o relógio. Afinal, ninguém se senta diante de uma feijoada completa pensando em sair correndo.
O espetáculo começa antes mesmo de o prato chegar à mesa. Da cozinha vem o perfume irresistível do feijão-preto cozinhando lentamente com carnes salgadas, costelinha, paio, linguiça e outros ingredientes que dão personalidade ao caldo encorpado. Enquanto isso, a couve é cortada bem fininha, o alho dança na frigideira e o torresmo ganha aquela crocância capaz de desafiar qualquer promessa de dieta.
Quando a feijoada finalmente aparece, acompanhada de arroz branco soltinho, farofa dourada, rodelas de laranja e molho de pimenta, instala-se um silêncio respeitoso. É breve, naturalmente. Logo surgem os primeiros elogios, as histórias da semana, as gargalhadas e as inevitáveis discussões sobre futebol, política e os mistérios da vida.
E se a sexta-feira pede feijoada, também costuma pedir uma bebida à altura da ocasião. Para alguns, uma caipirinha de limão, preparada com gelo e açúcar na medida certa. Para outros, a tradicional cerveja estupidamente gelada, servida em copo pequeno para não perder a temperatura. Há ainda quem prefira um suco natural, uma água com gás ou simplesmente o prazer de saborear cada garfada sem qualquer acompanhamento alcoólico. O importante é brindar à alegria de estar vivo.
Embora a tradição tenha consagrado especialmente as quartas-feiras e os sábados como dias de feijoada em muitos restaurantes brasileiros, a sexta vem conquistando seu espaço. É uma espécie de ensaio geral para o fim de semana. O expediente ainda não terminou completamente, mas o espírito já está de folga. E o almoço, que deveria durar uma hora, ameaça transformar-se em uma confraternização de tarde inteira.
Em Brasília, onde os encontros gastronômicos frequentemente se misturam às conversas sobre os bastidores do poder, a feijoada também funciona como território neutro. Governistas e oposicionistas podem até discordar sobre os rumos do país, mas dificilmente haverá divergência quando o assunto for a qualidade de um torresmo bem preparado. Pelo menos até alguém resolver discutir quem fica com a última porção.
O segredo de uma boa feijoada, porém, não está apenas na seleção das carnes ou no ponto do feijão. Está no equilíbrio dos temperos, no cuidado do preparo e naquela generosidade que faz a cozinheira ou o cozinheiro perguntar, antes mesmo de o convidado terminar o prato, se deseja repetir. Feijoada boa é aquela que acolhe, aproxima e deixa saudade.
Também não precisa ser uma extravagância. Uma versão mais leve, preparada com carnes menos gordurosas, pode proporcionar o mesmo prazer. O feijão continua sendo o protagonista, a couve mantém seu lugar de honra e a farofa segue indispensável. O que muda é apenas a intensidade da aventura gastronômica.
E assim, entre uma garfada e outra, a sexta-feira vai cumprindo seu papel de mensageira da liberdade. Os problemas não desaparecem, as contas continuam chegando e a segunda-feira permanece à espreita. Mas nada disso precisa roubar o encanto de um momento compartilhado com pessoas queridas.
Porque, no fundo, o verdadeiro sabor da feijoada não está somente no feijão, nas carnes ou nos acompanhamentos. Está na conversa despretensiosa, no sorriso de quem chega, no abraço de quem parte e na certeza de que a felicidade, muitas vezes, cabe inteira dentro de um prato fundo.
Portanto, se o “sextou” já está batendo à porta, convém deixar a panela preparada, os amigos avisados e a mesa posta. Afinal, a vida pode até ser complicada, mas uma boa feijoada tem o dom de torná-la mais saborosa.
E quem disse que é preciso esperar o sábado para ser feliz?

