Em 4 de outubro de 2026, o Brasil não estará apenas diante de uma eleição.
Estará diante de um espelho.
Mais de 150 milhões de brasileiros irão às urnas para escolher presidente, governadores, senadores e deputados. O primeiro turno está marcado oficialmente para esse dia.
Mas existe uma pergunta que nenhuma urna eletrônica consegue responder por nós:
Que país queremos ser?
Uma eleição pode escolher governantes.
Mas não consegue, sozinha, transformar uma sociedade.
Governantes podem criar leis, administrar recursos, estabelecer prioridades e conduzir políticas públicas. Mas nenhuma democracia funciona sem cidadãos capazes de reconhecer que também possuem responsabilidade sobre o destino coletivo.
Por isso, talvez seja mais profundo dizer que, em 4 de outubro, não estarão em julgamento apenas candidatos.
Estarão em julgamento nossas escolhas, nossos valores, nossas prioridades e nossa capacidade de distinguir promessa de realidade.
O Brasil chega a esta eleição carregando contradições que não começaram ontem e que tampouco pertencem exclusivamente a um partido ou a um governo.
Somos uma das maiores economias do mundo, mas convivemos com enormes desigualdades.
Temos regiões altamente desenvolvidas e outras que ainda enfrentam carências básicas.
Em 2025, o rendimento domiciliar per capita médio brasileiro foi de R$ 2.316. No mesmo ano, o valor foi de R$ 1.484 no Nordeste e R$ 1.568 no Norte, enquanto chegou a R$ 2.772 no Centro-Oeste. Esses números não são apenas estatísticas. Eles representam oportunidades diferentes de estudar, trabalhar, empreender, cuidar da saúde e construir um futuro.
O Brasil não é um país único quando observamos as condições concretas de vida.
Há o Brasil das grandes cidades e o Brasil das pequenas comunidades.
O Brasil do agronegócio altamente tecnológico e o do trabalhador rural que ainda enfrenta dificuldades de infraestrutura.
O Brasil dos centros universitários e o das escolas que lutam diariamente contra a evasão e a falta de recursos.
O Brasil de quem pode pagar um plano de saúde e o de quem depende exclusivamente do sistema público.
O Brasil de quem nasceu cercado de oportunidades e o de quem nasceu tentando sobreviver.
É impossível discutir o futuro nacional sem olhar para essas diferenças.
O Brasil que trabalha
Também existe uma questão econômica que precisa ser enfrentada com seriedade.
O brasileiro trabalha, produz, empreende e paga impostos.
A carga tributária bruta estimada para 2025 correspondeu a 32,40% do Produto Interno Bruto.
A discussão, portanto, não deveria ser simplesmente entre “mais Estado” ou “menos Estado”.
A pergunta mais madura é:
O cidadão recebe serviços públicos compatíveis com aquilo que a sociedade arrecada?
E outra pergunta é igualmente importante:
Como financiar saúde, educação, segurança, previdência e infraestrutura sem transformar o sistema tributário em um obstáculo permanente para quem produz?
Não existe resposta fácil.
Um Estado excessivamente pesado pode dificultar a atividade econômica.
Mas um Estado incapaz de garantir educação, saúde, segurança e proteção social também cobra um preço enorme da população.
O verdadeiro desafio talvez esteja em construir um Estado que seja, simultaneamente, responsável nas contas, eficiente na gestão e humano na proteção dos mais vulneráveis.
A desigualdade não pode ser esquecida
Quando falamos em responsabilidade fiscal, precisamos lembrar que números também têm consequências humanas.
Para uma família de renda elevada, uma decisão econômica pode significar uma redução no patrimônio.
Para uma família pobre, a mesma crise pode significar deixar de comprar alimentos.
Para o pequeno empresário, uma combinação de impostos, juros, burocracia e insegurança pode significar fechar as portas.
Para o trabalhador informal, pode significar simplesmente não ter renda no fim do mês.
Por isso, uma política pública não deve ser avaliada apenas pela intenção de quem a propõe.
Deve ser examinada também por seus resultados.
Quem paga?
Quem recebe?
Quem fica de fora?
Quanto custa?
É sustentável?
Produz dependência ou cria oportunidades?
Reduz ou aumenta desigualdades?
Essas são perguntas que deveriam ocupar o centro de qualquer eleição.
Educação: talvez o verdadeiro projeto de país
Existe ainda uma questão que deveria atravessar todas as disputas políticas:
o que estamos fazendo com nossas crianças?
Uma nação pode construir estradas, portos, aeroportos e prédios públicos.
Mas, se não conseguir formar pessoas capazes de pensar, trabalhar, conviver e participar da vida democrática, terá construído infraestrutura sem construir plenamente o futuro.
O próprio IBGE mostra que houve avanços educacionais importantes, mas também que algumas metas estabelecidas para a educação ainda não foram alcançadas.
E aqui está uma das grandes injustiças brasileiras: a criança que nasce em uma família pobre não escolheu nascer pobre.
A criança que nasce em determinada região não escolheu sua região.
A criança que frequenta uma escola com menos recursos não escolheu essa escola.
Uma sociedade verdadeiramente comprometida com a liberdade precisa, portanto, preocupar-se não apenas com a liberdade de escolher, mas também com a possibilidade real de cada pessoa desenvolver suas capacidades.
Sem educação de qualidade, a liberdade pode existir juridicamente e faltar concretamente.
Segurança: o direito mais básico
Também não podemos falar em dignidade sem falar de segurança.
O crime organizado não é apenas uma questão policial. Ele interfere na economia, na vida comunitária, na juventude, no comércio, no transporte e na própria capacidade do Estado de exercer sua autoridade.
O Atlas da Violência do Ipea, por exemplo, analisa a distribuição territorial dos homicídios e a dinâmica regional do crime organizado, mostrando que a violência brasileira possui características muito diferentes conforme o território.
Isso nos obriga a fugir das soluções simplistas.
Segurança exige polícia preparada, investigação, inteligência, sistema prisional funcional, combate às organizações criminosas, prevenção, oportunidades para os jovens e presença efetiva do Estado.
Não existe sociedade verdadeiramente livre quando o cidadão precisa organizar sua vida pelo medo.
E existe ainda a corrupção
A corrupção não deveria ser utilizada apenas como arma eleitoral contra adversários.
Ela deveria ser compreendida como uma doença institucional que pode atingir diferentes governos, partidos e estruturas de poder.
Quando dinheiro público é desviado, alguém paga.
Pode ser o paciente que espera por atendimento.
Pode ser o estudante que permanece em uma escola sem estrutura.
Pode ser o cidadão que utiliza uma estrada precária.
Pode ser o trabalhador que paga impostos e não recebe o serviço público esperado.
Combater a corrupção, portanto, não deveria significar apenas perseguir corruptos.
Deveria significar construir instituições capazes de dificultar o desvio, aumentar a transparência, responsabilizar os envolvidos e impedir que a impunidade se transforme em incentivo.
Mas existe uma responsabilidade que não podemos transferir
É fácil colocar toda a culpa nos políticos.
Mais difícil é olhar para nós mesmos.
Porque a democracia não é formada apenas por governos.
Ela também é formada pela sociedade que os elege, pelas instituições que os fiscalizam, pela imprensa que os questiona, pela Justiça que aplica as leis e pelos cidadãos que decidem o que aceitam ou não aceitam.
O problema começa quando nos acostumamos com o absurdo.
Quando achamos normal o favor pessoal substituir o direito.
Quando defendemos um político porque ele é “do nosso lado”, mas condenamos exatamente a mesma conduta quando praticada pelo adversário.
Quando exigimos honestidade apenas de quem não votamos.
Quando compartilhamos uma informação falsa porque ela confirma aquilo em que já acreditamos.
Quando confundimos patriotismo com torcida política.
Uma democracia madura precisa de cidadãos capazes de cobrar o próprio lado.
Essa talvez seja uma das maiores provas de maturidade democrática.
O voto não é um cheque em branco
No dia 4 de outubro, cada cidadão terá uma escolha.
Mas essa escolha não deveria ser baseada apenas em simpatia, medo, raiva ou promessa.
Deveria envolver perguntas difíceis:
Qual é a trajetória desse candidato?
O que ele realmente realizou?
Quais são suas propostas?
Quanto elas custam?
De onde virão os recursos?
Como pretende enfrentar a violência?
Como pretende melhorar a educação?
Como pretende reduzir desigualdades?
Como pretende estimular o crescimento econômico?
Como pretende preservar as instituições democráticas?
Como pretende lidar com aqueles que pensam diferente?
E, talvez acima de todas:
o que existe de concreto além do discurso?
Não devemos entregar nossa consciência política a ninguém.
Nem à esquerda.
Nem à direita.
Nem ao centro.
Nem a partidos.
Nem a influenciadores.
Nem às redes sociais.
Nem ao medo.
Nem ao ódio.
O voto pertence ao cidadão.
O verdadeiro julgamento
Por isso, talvez seja exagerado dizer que em 4 de outubro apenas os governantes estarão sendo julgados.
De certa maneira, todos nós estaremos sendo chamados a prestar contas diante da própria consciência.
Não porque uma eleição possa ser reduzida a uma batalha entre “bons” e “maus”.
Não porque um candidato represente sozinho o futuro do país.
E muito menos porque exista uma solução simples para problemas construídos ao longo de décadas.
Mas porque cada geração recebe uma parte do Brasil e entrega outra às gerações seguintes.
E essa responsabilidade não pode ser terceirizada.
O Brasil que receberemos amanhã dependerá das escolhas que fizermos hoje — mas também do trabalho realizado depois da eleição.
Porque nenhum presidente governa sozinho.
Nenhum Congresso funciona sem participação social.
Nenhum governador resolve todos os problemas de um Estado.
Nenhuma política pública substitui a responsabilidade das famílias, das empresas, das escolas, das comunidades e dos próprios cidadãos.
O Brasil que precisamos construir
Talvez a grande pergunta de 4 de outubro não seja:
“Quem vai vencer?”
Mas:
“Que tipo de Brasil queremos ajudar a construir depois que a eleição terminar?”
Um Brasil em que a responsabilidade fiscal seja compatível com a justiça social.
Em que o crescimento econômico produza oportunidades.
Em que o empreendedor não seja tratado como inimigo.
Em que o trabalhador tenha dignidade.
Em que o pobre não seja lembrado apenas durante as campanhas.
Em que a educação seja prioridade verdadeira, e não apenas promessa.
Em que a segurança pública proteja o cidadão e enfrente as organizações criminosas.
Em que a corrupção seja combatida independentemente de quem esteja no poder.
Em que as instituições sejam respeitadas.
Em que a liberdade venha acompanhada de responsabilidade.
Em que divergência política não seja confundida com inimizado.
E em que o cidadão compreenda que democracia não termina quando a urna é desligada.
A eleição passa.
Os governos passam.
Os partidos passam.
Os presidentes passam.
Mas o Brasil permanece.
E talvez seja justamente essa a maior responsabilidade de uma geração:
não entregar aos nossos filhos um país perfeito — porque nenhum país é perfeito —, mas entregar um país um pouco mais justo, mais livre, mais seguro, mais educado, mais próspero e mais consciente do seu próprio potencial.
No dia 4 de outubro, o Brasil escolherá seus governantes.
Mas, no dia 5, começará novamente a tarefa que nenhuma eleição pode realizar por nós:
a construção cotidiana do país que desejamos ser.
Porque a história de uma nação não é escrita apenas pelos governantes.
É escrita também pelas escolhas, pelas omissões, pela coragem e pela responsabilidade de seu povo.

