A arte de não parecer normal

Eduardo Martínez
3 minutos de leitura
Emanuelle Nascimento - Foto Francisco Filipino

Passei boa parte da vida tentando entender por que as pessoas se preocupam tanto em parecer normais.

É uma palavra curiosa: normal.

Quem estabeleceu?

Quem fiscaliza?

Existe um Ministério da Normalidade que eu desconheço?

Becker talvez nos lembrasse que aquilo que chamamos de desvio não está apenas no comportamento, mas também nos processos sociais que classificam determinadas condutas como aceitáveis e outras como inadequadas.

E eu acho fascinante como fazemos isso o tempo inteiro.

A pessoa ri alto: exagerada.

Fala demais: inconveniente.

Sente demais: intensa.

Demonstra carinho: carente.

Não demonstra: fria.

Muda de ideia: indecisa.

Não muda: teimosa.

Trabalha muito: obcecada.

Descansa: preguiçosa.

Viaja sozinha: corajosa.

Viaja acompanhada: dependente.

No fundo, talvez a sociedade tenha uma espécie de formulário invisível para classificar pessoas.

E eu confesso: nunca fui boa em preencher formulário.

Talvez por isso tenha aprendido, com o tempo, que existe uma diferença enorme entre ser inadequada e simplesmente não caber na expectativa de alguém.

Goffman explicaria muito bem esse teatro cotidiano.

Nós aprendemos a administrar impressões.

Vestimos determinadas roupas, usamos determinadas palavras, controlamos gestos, escolhemos o que mostrar e escondemos aquilo que acreditamos que pode comprometer a nossa imagem.

Mas existe um problema: quanto mais tempo passamos administrando a fachada, menos tempo sobra para descobrir quem está nos bastidores.
E talvez seja por isso que tanta gente esteja cansada.

Não necessariamente da própria vida.

Mas da personagem que precisou interpretar para ser aceita nela.

Le Breton nos ajuda a pensar o corpo como experiência social. O corpo não é apenas aquilo que carregamos. É também aquilo que os outros olham, interpretam, julgam e disciplinam.

E talvez seja por isso que, depois de tantos anos tentando parecer adequada, eu tenha chegado a uma conclusão muito simples: eu não quero mais ser adequada para todo mundo.

Quero ser coerente comigo.

Não significa fazer qualquer coisa.

Não significa não ouvir críticas.

Não significa transformar autenticidade em desculpa para grosseria.

Significa apenas não passar a vida inteira tentando caber numa forma que nunca foi feita para mim.

Se isso me torna um pouco estranha, tudo bem.

Aliás, considerando a quantidade de gente completamente normal que eu conheço, começo a achar que ser um pouco estranha pode ser uma excelente estratégia de sobrevivência.

E, convenhamos, rende histórias muito melhores.

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