A vida adulta é uma instituição total e ninguém avisou

Eduardo Martínez
3 minutos de leitura
Emanuelle Nascimento - Foto Francisco Filipino

Existe uma coisa que ninguém me explicou quando eu era criança: a vida adulta não é exatamente aquela coisa maravilhosa que aparece nos filmes.

Quando somos pequenos, imaginamos que crescer significa liberdade.
Você cresce, paga suas contas, escolhe onde morar, decide o que comer, compra aquilo que quiser e, finalmente, ninguém manda você dormir.

Uma mentira sociológica de proporções consideráveis.

A gente cresce e descobre que agora existem boletos, prazos, reuniões, responsabilidades, impostos, mensagens não respondidas, pessoas perguntando “e os planos?” e uma quantidade assustadora de senhas que precisam ser lembradas.

Goffman provavelmente teria muito material para estudar aqui.

A vida adulta possui fachada, bastidores, regras, papéis sociais e uma quantidade enorme de gente fingindo que sabe exatamente o que está fazendo.

Você acorda, toma banho, coloca uma roupa minimamente apresentável e sai de casa desempenhando o papel de adulto funcional.

No caminho, porém, existe uma pequena reunião interna:

“Será que estamos fazendo tudo errado?”

“Provavelmente.”

“Então vamos trabalhar.”

E seguimos.

Talvez uma das maiores ficções da vida adulta seja a ideia de que, em algum momento, chegaremos a uma idade em que finalmente teremos todas as respostas.

Não teremos.

A diferença é que, depois de algum tempo, aprendemos a fazer perguntas melhores.

E isso já é alguma coisa.

Bourdieu talvez explicasse que carregamos disposições, histórias e estruturas que nos atravessam muito antes de percebermos. Foucault lembraria que existem mecanismos de disciplina funcionando mesmo quando ninguém está nos obrigando diretamente a nada.

Eu acrescentaria apenas uma observação metodologicamente rigorosa: às vezes somos nós mesmos que fazemos a fiscalização.

Ninguém mandou trabalhar até tarde.

Nós fomos.

Ninguém mandou responder aquela mensagem imediatamente.

Respondemos.

Ninguém mandou achar que precisamos dar conta de tudo.

Mas fomos lá e criamos um edital interno com quarenta e sete exigências.

E ainda cobramos nota dez.

Talvez amadurecer seja justamente perceber que a vida adulta não precisa ser uma prova permanente de competência.

Há dias em que você vai dar conta.

Há dias em que não.

Há dias em que será brilhante.

Há dias em que vai esquecer onde colocou a chave enquanto segura a chave na mão.

A existência não perde valor porque você não conseguiu cumprir a lista inteira.

Talvez a liberdade esteja justamente em começar a desmontar algumas dessas exigências que aprendemos a chamar de obrigação.

A vida não veio com manual.

E, sinceramente, talvez seja melhor assim.

Porque se viesse, eu provavelmente perderia o prazo para lê-lo.

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