Geleira do Juízo Final derrete rápido e ameaça engolir áreas costeiras

Redação
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Malu Oliveira - Foto Divulgação/Nasa

O planeta Terra pode estar diante de uma ameaça ambiental ainda mais grave do que imaginavam os cientistas. Escondida entre as imensas paredes de gelo da Antártida Ocidental, a geleira Thwaites, conhecida mundialmente como Geleira do Juízo Final, está perdendo sua estabilidade em um ritmo que desafia antigas previsões. Um novo estudo revela que sua contribuição para a elevação do nível dos oceanos poderá ser duas vezes maior do que se calculava anteriormente.

A conclusão é de pesquisadores da Universidade da Califórnia em Irvine, nos Estados Unidos, e do Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) da Nasa. O trabalho, publicado em 12 de outubro na revista científica Nature Communications, projeta que o derretimento da gigantesca massa de gelo poderá acrescentar até 30 milímetros, ou três centímetros, ao nível médio global do mar até 2100. A estimativa é aproximadamente o dobro das projeções anteriores, mesmo sem considerar um aquecimento climático adicional.

Pode parecer pouco quando se fala em centímetros. Mas, na linguagem dos oceanos, pequenas elevações representam grandes ameaças. O avanço das águas aumenta a frequência de inundações costeiras, agrava a erosão das praias, favorece a entrada de água salgada em reservas subterrâneas e coloca em risco milhões de pessoas que vivem próximas ao litoral.

Perigo sob o gelo
O que mais preocupa os pesquisadores não é apenas o derretimento visível na superfície da geleira. A verdadeira ameaça está escondida sob quilômetros de gelo, onde águas oceânicas relativamente quentes avançam por baixo da estrutura congelada e aceleram sua desintegração.

Os modelos científicos tradicionais consideravam a passagem entre o gelo apoiado no fundo do oceano e aquele que flutua sobre a água como uma fronteira relativamente definida. A nova pesquisa demonstra que essa transição ocorre em uma faixa de vários quilômetros, permitindo que a água salgada penetre sob a geleira e intensifique o derretimento.

Ao incorporar esse fenômeno às simulações, os cientistas conseguiram reproduzir com maior precisão quase três décadas de observações sobre o recuo, o afinamento e a aceleração da Thwaites.

O pesquisador Mattia Poinelli, um dos responsáveis pelo trabalho, explica que a geleira ainda encontra sustentação em elevações submarinas. Entretanto, a perda desses pontos de apoio poderá acelerar seu deslocamento em direção ao oceano.

As simulações indicam que uma dessas estruturas, conhecida como cordilheira Mouginot, poderá deixar de sustentar parte da geleira ainda neste século. Em determinados cenários, a probabilidade desse desprendimento chega a 60% até 2100.

Alterando o mapa
A Thwaites está entre as maiores geleiras do planeta. Seu tamanho e sua localização fazem dela uma peça fundamental para a estabilidade de outras massas de gelo da Antártida Ocidental.

O apelido de Geleira do Juízo Final nasceu justamente de seu potencial destrutivo. Caso desaparecesse completamente, sua massa de gelo poderia elevar o nível médio global dos oceanos em aproximadamente 65 centímetros. E existe um perigo adicional: seu recuo pode favorecer a desestabilização de geleiras vizinhas, ampliando as consequências ao longo dos séculos.

É importante distinguir os cenários. Os três centímetros previstos pelo novo estudo representam uma contribuição possível da Thwaites até 2100, não a elevação total dos oceanos nem o resultado de um colapso completo. Este último seria um processo de prazo muito mais longo.

Outro estudo, divulgado pelo British Antarctic Survey, instituto britânico de pesquisas polares, acrescentou uma informação inquietante.

Segundo os pesquisadores, a Thwaites continuará perdendo gelo durante pelo menos os próximos 150 anos, mesmo em simulações que consideram uma interrupção extrema do derretimento provocado pelo oceano.

A descoberta sugere que parte das transformações já desencadeadas poderá continuar produzindo consequências durante gerações. Isso não significa, porém, que reduzir as emissões de gases de efeito estufa seja inútil. Pelo contrário: limitar o aquecimento continua sendo fundamental para evitar perdas ainda maiores.

Brasil na rota
Embora a geleira esteja localizada a milhares de quilômetros do território brasileiro, seus efeitos não respeitam fronteiras.

A elevação global do nível do mar representa um risco adicional para cidades costeiras como Recife, Santos, Rio de Janeiro, Salvador e outras localidades sujeitas a ressacas, erosão e inundações.

Em regiões de baixa altitude, a combinação entre marés elevadas, chuvas intensas e avanço do oceano pode ampliar danos à infraestrutura urbana, prejudicar atividades econômicas e ameaçar moradias.

O tamanho desses impactos dependerá das condições locais, da evolução do aquecimento global e da capacidade de adaptação das cidades. Não é possível atribuir a uma única geleira uma previsão específica de inundação para determinada praia brasileira.

Relógio climático
Para o glaciologista Eric Rignot, professor da Universidade da Califórnia em Irvine e coautor da pesquisa, os novos resultados demonstram que os modelos anteriores deixavam de considerar processos físicos essenciais para compreender a velocidade da perda de gelo.

Ao aperfeiçoar essas simulações, os cientistas passaram a identificar riscos maiores de inundações costeiras nas próximas décadas.

A descoberta não significa que a Antártida esteja prestes a desaparecer nem que uma catástrofe oceânica ocorrerá repentinamente. Significa, contudo, que as transformações em andamento podem ser mais intensas do que se previa.

A chamada Geleira do Juízo Final, portanto, não anuncia uma data para o fim do mundo. Mas envia um recado cada vez mais difícil de ignorar: o que acontece nas profundezas geladas da Antártida pode redesenhar, lentamente, a geografia dos continentes e transformar a vida de milhões de pessoas.

E, enquanto a humanidade discute os custos de enfrentar as mudanças climáticas, o gelo continua derretendo. Sem discursos, sem fronteiras e sem pedir licença.

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