Tempos de um jovem que se imaginava macho antes de ter pelos na cara

Redação
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Wenceslau Araújo - Foto Acervo Pessoal

A pedidos da família e dos amigos, prometi não falar de Bolsonaro ou de Lula neste domingo de paz e de alegria. Todavia, não há como não lembrar daquele outro domingo terrivelmente prazeroso, o da eleição. Foi um daqueles dias em que tive consciência de que tudo seria fácil se não fossem as dificuldades. Saí de casa disposto a comprar um sonho novo na primeira padaria que encontrasse. Na cabeça, além do chapéu, a certeza de que quem ama o feio e o extremista é porque o bonito e o progressista não aparecem. Entre primos, pombos e rufiões de donzelas sonhadoras, decidi passar no barbeiro, local onde, para alguns, é o lugar em que todos esperam muito, mas é de lá que não sai nada.

Eu só queria cortar o cabelo. Como não acompanhei a evolução tecnológica, social e masturbatória, me assustei com as novas nomenclaturas e as modernidades inventadas pelos amantes das redes sociais para tumultuar a cabeça despensante dos mais velhos. De cara, ouvi o que sempre chamei de cortador de cabelo me informando que, agora, as barbearias são inovadoras, do tipo delirium premium, e que os profissionais teriam de ser chamados de personal hair ou hairdresser. Tudo bem! O problema foi aceitar a obrigatória pantufa furta-cor e o roupão usado por ocasião do temido e, às vezes, aguardado toque retal.

Demais para quem só queria dar um tapa no visual antes de partir para a seção eleitoral e votar positivamente. Enfim, eu só queria cortar o cabelo. Sentado na cadeira estilo Luís XV, logo o professional indagou sobre a música que eu gostaria de ouvir e a bebida de minha preferência. Repeti, sonora e sugestivamente, que só queria cortar o cabelo. Tive de engolir Almir Rogério e o inigualável Fuscão Preto. Tarefa cumprida, o “hair do carvalho” ameaçou passar uma daquelas pomadas de perdimento da honra em minha cabeça. Não adiantou eu dizer que era de virgem com ascendente macho em escorpião.

Com a mão dura e os dedos moles, ele tascou a bosta escorregadia e pegajosa no meu cocuruto. Reiterei para o entendido rapaz que, até aquele momento, não sabia que ela (a cabeça superior) ou meu cabelo estavam doentes para receber pomada com textura de vaselina e cheiro de extrato usado pelas moças de vida fácil depois da 35ª.funhanhada. Baixinho, disse ao moçoilo que pomada em qualquer parte do meu corpo só a Canela de Velho. Não satisfeito, o sujeito ainda borrifou em minha nuca uma essência paraguaia parecida com o irritante e enjoativo Chanel no. 5.

Violentado dialeticamente, quase seduzido mentalmente, com o pescoço ardido e cheiroso igual a filho de barbeiro, mas com o caneco intacto, sussurrei para mim mesmo que só queria cortar o cabelo. Como quase fui, metafórica e nostalgicamente, desonrado, me restou fixar na lendária figura dos barbeiros de minha infância e adolescência. Seu Antônio era um velho gordinho, cabeça branca, alpercatas de couro cru, jaleco de pipoqueiro suburbano, calças largas e suspensório encardido. Estilo D. João VI, a cadeira era de pau duro com uma almofada de palhas de milho.

Espalhadas pelos dois ou três bancos de madeira, meia dúzia de revistas. Três eram Playboy com fotos novíssimas da Vera Fischer, Sônia Braga e Maitê Proença, e três Quatro Rodas anunciando os lançamentos do Corcel, da Rural Willys e do Karmann Ghia. O mais gostoso de tudo era a bombinha usada por seu Antônio para borrifar talco Palmolive ou Eucalol no pescoço quase sem cabelo, pois minha moda e da maioria dos meninos da época era meia cabeleira, ou seja, meia careca.

Eu descia da cadeira branco e empanado como uma coxinha do Mercadão de São Paulo ou do Mercado Central de Belo Horizonte. Apesar de tudo, eu agradecia a Deus o fato de as mãos do seu Antônio se limitarem a tocar meu cabelo. Como eu só queria cortar o cabelo, fiz minhas as palavras de Fígaro, o astuto barbeiro de Sevilha que, por dinheiro, ajudou um conde a se casar com sua deusa: Nunca aborreça seu barbeiro. É dele a mão que segura a navalha. É por essa e outras razões que, para não correr risco, sempre dou a mesma resposta àquela pergunta sobre a preferência do corte: “Por favor, corta na frente e pica atrás”. Graças a Deus, nenhum deles até hoje entendeu a literalidade da resposta.

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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras

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