Há pessoas que transformam a simplicidade em sabedoria, porque não precisam de discursos elaborados, livros de filosofia ou fórmulas milagrosas para ensinar alguma coisa sobre a vida. Basta uma conversa despretensiosa, dessas que surgem entre uma partida e outra de dominó, para que uma frase aparentemente comum se transforme em lição para todos os dias. É assim com Eugênio Carlos Lima, amigo de mesa, que costuma lembrar que o dia deve começar com três atitudes fundamentais: agradecimento, sorriso e determinação para seguir em frente.
Parece pouco, mas é quase tudo. Agradecer ao despertar é reconhecer que a vida, apesar de suas imperfeições, continua oferecendo oportunidades. É compreender que abrir os olhos para um novo amanhecer já representa uma vitória silenciosa. Enquanto muitos lamentam o que perderam, outros descobrem motivos para celebrar aquilo que permanece. A gratidão não apaga as dificuldades, mas muda a maneira como olhamos para elas.
O sorriso vem em seguida. Não aquele sorriso artificial, usado para esconder tristezas ou fingir que tudo está bem. Falamos do sorriso que nasce da esperança, da consciência de que nenhum sofrimento precisa ocupar todos os espaços da existência. Sorrir é uma forma delicada de resistência. É dizer ao mundo, mesmo sem palavras, que as tempestades podem até nos molhar, mas não precisam afogar nossos sonhos.
E então chega a determinação. Talvez seja a mais exigente das três virtudes, porque seguir em frente nem sempre é fácil. Existem manhãs em que o corpo desperta cansado, a alma parece envelhecida e os problemas se acumulam como pedras no caminho. Nessas horas, a vontade de desistir pode bater à porta. Mas é justamente quando tudo parece difícil que precisamos recordar uma verdade: ninguém precisa vencer todas as batalhas de uma só vez. Às vezes, basta dar o próximo passo.
A vida não exige perfeição. Exige presença, paciência e disposição para aprender. Quem errou ontem pode acertar hoje. Quem perdeu uma oportunidade pode descobrir outra. Quem sofreu uma decepção pode reencontrar a confiança. O calendário não devolve os dias que passaram, mas oferece páginas em branco para novas histórias.
Há uma diferença enorme entre carregar o passado como experiência e arrastá-lo como condenação. As lembranças devem servir de aprendizado, não de prisão. Guardar ressentimentos é permitir que acontecimentos antigos continuem governando nosso presente. Perdoar, inclusive a nós mesmos, pode ser o primeiro passo para recuperar a leveza.
Também precisamos aprender que felicidade não é uma conquista reservada aos que possuem grandes fortunas, títulos importantes ou uma existência sem contratempos. Ela costuma morar em lugares modestos: no café servido com carinho, no abraço inesperado, na conversa entre amigos, no telefonema de alguém querido, na gargalhada que interrompe uma partida de dominó. São pequenos acontecimentos que, somados, dão grandeza à caminhada.
Isso não significa ignorar as dores. Há perdas que deixam cicatrizes profundas, ausências que nenhuma palavra consegue preencher e dificuldades que exigem mais do que pensamentos positivos. Reconhecer a tristeza, pedir ajuda e respeitar o próprio tempo também são demonstrações de coragem. A esperança verdadeira não nega a realidade. Ela nos ajuda a atravessá-la.
Eugênio Carlos Lima, com sua filosofia de mesa de dominó, talvez esteja nos oferecendo uma receita que nenhuma farmácia vende e nenhum dinheiro compra. Agradecer para valorizar a vida. Sorrir para não perder a ternura. Seguir em frente para não permitir que os obstáculos decidam nosso destino.
No dominó, como na existência, nem sempre recebemos as pedras que gostaríamos. Algumas partidas parecem perdidas antes mesmo da primeira jogada. Outras exigem paciência, estratégia e a humildade de reconhecer que não controlamos tudo. Mas enquanto houver pedras sobre a mesa, haverá também possibilidades. E, mesmo quando a partida termina em derrota, outra pode começar.
É preciso, sobretudo, abandonar o hábito de adiar a felicidade. Há quem espere a aposentadoria, a casa própria, a solução de todos os problemas ou a chegada de uma ocasião especial para começar a viver. Esquece que o tempo não faz promessas e que o amanhã, embora desejado, nunca foi garantido a ninguém.
Por isso, vale a pena cultivar o presente. Dizer às pessoas queridas o quanto são importantes. Fazer as pazes quando possível. Celebrar pequenas conquistas. Cuidar da saúde, alimentar amizades, exercitar a generosidade e compreender que envelhecer não significa deixar de sonhar. Enquanto houver curiosidade, afeto e vontade de aprender, a juventude continuará encontrando abrigo em algum lugar da alma.
Afinal, cada amanhecer é um convite, não uma cobrança. Não precisamos acordar melhores do que todos os outros. Basta tentar ser um pouco melhores do que fomos ontem.
E, quando a noite chegar, talvez possamos olhar para trás com a serenidade de quem fez o que estava ao seu alcance. Nem tudo terá dado certo. Algumas preocupações continuarão esperando solução. Mas, se conseguimos agradecer, oferecer um sorriso e caminhar mais alguns passos, o dia não terá sido em vão.
Porque viver é exatamente isso: agradecer pelo que ficou, sorrir pelo que ainda existe e seguir em frente pelo que ainda pode florescer. E amanhã, como certamente diria Eugênio Carlos Lima antes de embaralhar novamente as pedras do dominó, a vida nos dará outra oportunidade de jogar. E de fazer bonito, mesmo quando a sorte não ajudar.

