Democratas apostam na vida cara para vencerem as eleições do dia 3

Redação
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Antônio Albuquerque - Foto Reprodução/X

A derrota nas urnas ensinou aos democratas americanos uma lição que parece simples, mas custou caro: antes de discutir grandes transformações sociais, o eleitor quer saber se terá dinheiro para pagar as contas no fim do mês. A mudança de estratégia, iniciada após o fracasso de Kamala Harris na eleição presidencial de 2024, ganhou força na preparação para as eleições legislativas de 3 de novembro. O chamado wokismo, que durante anos ocupou espaço de destaque no discurso progressista, perdeu protagonismo para temas mais próximos da realidade econômica das famílias.

O novo direcionamento, porém, está longe de ser unanimidade dentro do Partido Democrata. Em um antigo cinema de Portland, no estado do Maine, no último dia 22 de outubro, a deputada Alexandria Ocasio-Cortez, uma das principais representantes da esquerda americana, foi confrontada por uma estudante transgênero. A jovem questionou o aparente abandono das pautas LGBTQ+ e perguntou se essa parcela da população havia se transformado em uma causa politicamente inconveniente.

A resposta da congressista foi um recado aos próprios correligionários. Ocasio-Cortez lamentou que políticos se deixem intimidar tão facilmente por uma derrota eleitoral e criticou aqueles que mudam radicalmente de posição ao primeiro sinal de dificuldade. Para ela, abandonar convicções por conveniência é justamente um dos comportamentos que mais afastam a população da política.

O episódio expôs uma divisão que atravessa o partido. De um lado, dirigentes e estrategistas convencidos de que a recuperação eleitoral depende de um discurso concentrado na economia. De outro, lideranças progressistas que consideram perigoso relegar a segundo plano bandeiras históricas, como o combate à discriminação racial, a igualdade de gênero, os direitos reprodutivos e a proteção da comunidade LGBTQ+.

Na campanha de 2024, essas questões tiveram grande visibilidade, embora não fossem os únicos temas defendidos por Kamala Harris. Os republicanos, entretanto, exploraram o assunto para apresentar a candidata democrata como representante de uma agenda excessivamente ideológica, distante das preocupações materiais de parte do eleitorado.

Agora, os democratas procuram inverter essa percepção. O preço da gasolina, o custo dos alimentos, os aluguéis, o acesso à saúde e a dificuldade de comprar uma casa passaram a ocupar o centro das mensagens eleitorais. São problemas que ultrapassam diferenças partidárias e atingem diretamente o orçamento doméstico.

O analista político Benjamin VanDreew, autor de um estudo sobre o wokismo, resume a transformação ao observar que a economia passou a ofuscar os demais assuntos. Segundo ele, o partido voltou sua atenção para aquilo que o senador Bernie Sanders costuma chamar de questões do dia a dia: os problemas discutidos pelas famílias ao redor da mesa da cozinha.

A mudança não significa necessariamente o abandono dos compromissos sociais que marcaram a identidade democrata nas últimas décadas. Representa, sobretudo, uma tentativa de reorganizar prioridades e reconstruir a comunicação com eleitores que passaram a enxergar o partido como distante de suas necessidades mais imediatas.

O desafio é encontrar um ponto de equilíbrio. Se insistirem exclusivamente nas pautas identitárias, os democratas correm o risco de repetir dificuldades enfrentadas em 2024. Se as abandonarem, poderão perder a confiança de segmentos que constituem parte importante de sua base política.

No fundo, a disputa revela uma realidade que ultrapassa as fronteiras americanas: valores e direitos continuam relevantes, mas a inflação, o supermercado, o aluguel e as contas vencendo não esperam pelo fim dos debates ideológicos.

Para os democratas, a nova palavra de ordem parece ser menos guerra cultural e mais economia doméstica. Resta saber se essa mudança de discurso será suficiente para reconquistar um eleitorado que, antes de escolher entre direita e esquerda, quer simplesmente conseguir fechar o mês no azul.

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