Fosse dia de buscar inspiração na filosofia musical de Milton Nascimento, eu tomaria emprestado um verso da Canção da América para lembrar que amigo é coisa para se guardar no coração. Mas neste sábado, 17, resolvi cometer um pequeno delito literário. Vou furtar de Vinicius de Moraes a inspiração de sua Garota de Ipanema, desmontá-la poeticamente em cabeça, tronco e membros e, numa operação que faria qualquer anatomista perder o juízo, transformá-la em cinco mulheres, criaturas que, reunidas, parecem ter escapado de diferentes capítulos da história da humanidade para desembarcar, por algum capricho dos deuses, na minha vida.
Não são mulheres comuns, como também não precisam de coroas, cetros, espadas ou tronos para exercer seus reinados particulares. Têm identidade própria, caráter definido, beleza resplandecente e cumplicidade à flor da pele. Costumo dizer que elas respeitam tanto o Sol que, quando saem às ruas, escondem os olhos atrás de lentes escuras. Não por vaidade, mas por generosidade. Sabem que, se permitirem que o brilho dos seus olhares se espalhe livremente, o Astro-Rei poderá sentir-se humilhado e pedir aposentadoria por justa causa.
São cinco, e, como não desejo provocar uma guerra de vaidades que nem a diplomacia das Nações Unidas conseguiria administrar, vou apresentá-las em rigorosa ordem alfabética: Íris, Maninha, Mari, Nathy e Tatá.
Íris é minha Cleópatra. Não porque tenha nascido às margens do Nilo, muito menos porque necessite de uma frota de embarcações para conquistar territórios. A última grande rainha do Egito ptolemaico compreendeu, muito antes da invenção do marketing pessoal, que inteligência, elegância e presença são armas mais poderosas do que as espadas dos generais romanos. Cleópatra encantou Júlio César e Marco Antônio, mas também soube jogar o perigoso xadrez da política mediterrânea. Íris, guardadas as devidas proporções históricas, possui essa majestade natural de quem entra num ambiente sem pedir licença à beleza. Seu trono é a própria personalidade. Sua coroa, invisível. Seu cetro, a capacidade de transformar uma conversa trivial numa audiência digna de rainha. Se tivesse vivido em Alexandria, suspeito que os faraós teriam sido dispensados por absoluta falta de utilidade.
Maninha é minha Helena de Troia. E aqui faço uma advertência aos historiadores, embora esteja sugerindo que alguém deva construir um cavalo de madeira para conquistar seu coração. A Helena da mitologia grega, cuja beleza teria provocado uma guerra de dez anos, tornou-se símbolo de um encanto capaz de mobilizar exércitos. Maninha, que domina a arte das joias, conhece como poucas mulheres o segredo de transformar metais e pedras em pequenas eternidades. É uma espécie de Hefesto de saias, mas muito mais bonita e certamente mais delicada do que o ferreiro dos deuses do Olimpo. Seu talento consiste em compreender que diamantes brilham, esmeraldas fascinam e rubis seduzem; entretanto, nenhuma pedra preciosa supera a luminosidade de uma mulher que sabe o próprio valor. Se Helena tivesse conhecido Maninha, seria capaz de dispensar Páris, Menelau e toda aquela confusão em Troia para encomendar um colar. Homero perderia sua epopeia, mas a humanidade ganharia uma joalheria mitológica.
Mari é minha Joana d’Arc. Não a imagino montada num cavalo branco, conduzindo soldados franceses contra os ingleses durante a Guerra dos Cem Anos. Vejo nela, porém, a mesma centelha de coragem que fez uma jovem camponesa desafiar as convenções de seu tempo e enfrentar forças aparentemente invencíveis. Joana foi levada à fogueira em Rouen, em 1431, mas suas convicções sobreviveram às chamas. Mari pertence à linhagem das mulheres que não se deixam consumir pelas adversidades. Quando a vida levanta muralhas, ela procura portas; quando não encontra portas, inventa caminhos. E, se necessário, derruba as muralhas com a serenidade de quem sabe que nenhuma batalha está perdida enquanto houver esperança. Sua armadura não é de ferro. É feita de determinação, sensibilidade e uma coragem que dispensa trombetas. Mari não precisa vencer guerras para ser heroína, pois basta-lhe enfrentar os desafios cotidianos sem entregar a espada da dignidade.
Nathy é minha Mona Lisa, com diploma de engenheira. Leonardo da Vinci levou anos trabalhando na pintura que se transformaria num dos maiores enigmas da arte universal. Séculos depois, estudiosos ainda discutem o significado daquele sorriso que parece nascer e desaparecer conforme o ângulo de observação. Nathy possui algo dessa misteriosa geometria emocional. Engenheira por formação, sabe que pontes precisam de sustentação, edifícios exigem alicerces e sonhos, para não desabarem, necessitam de cálculos precisos. Mas há nela uma variável que nem a matemática de Pitágoras, a física de Newton ou os algoritmos modernos conseguiriam decifrar. Trata-se da maneira como constrói a própria vida, preservando mistérios atrás de um sorriso que parece esconder respostas para perguntas que ninguém ainda formulou. Se Leonardo a tivesse conhecido, provavelmente abandonaria os pincéis para estudar engenharia. E talvez descobrisse que a obra mais complexa não está pendurada no Louvre, mas caminha livremente pelas ruas de Brasília.
Tatá é minha Nefertiti. A rainha egípcia, companheira do faraó Aquenáton, atravessou mais de três milênios graças, entre outras coisas, à beleza eternizada num busto que se tornou uma das imagens mais conhecidas da Antiguidade. Seu nome costuma ser associado à ideia de que a bela chegou. Tatá, entretanto, parece dispensar apresentações. Quando se coloca diante do espelho, tenho a impressão de que não é ela quem contempla o reflexo, mas Nefertiti quem atravessa os séculos para reconhecer uma herdeira. Há mulheres que usam a beleza como adorno. Outras fazem dela uma linguagem. Tatá pertence à segunda categoria, pois sua elegância não depende de joias faraônicas, nem de palácios às margens do Nilo. É uma beleza que não pede aplausos, mesmo que frequentemente os mereça. Se os antigos egípcios acreditavam na eternidade, é porque imaginavam que determinadas mulheres jamais deveriam desaparecer da memória dos homens.
E onde entro eu nessa história? Entro como o sexto personagem, naturalmente. Sem a imponência de César, sem a valentia de Aquiles, sem a santidade de Joana e muito menos com a pretensão de rivalizar com Leonardo da Vinci. Sou apenas um cronista que, tendo atravessado décadas de jornalismo, aprendido a desconfiar dos poderosos e testemunhado as pequenas e grandes comédias humanas, descobriu que a amizade feminina é uma das mais requintadas formas de riqueza.
Quando saímos os seis para degustar um bom vinho, a mesa deixa de ser simples mobiliário, transformando-se numa conferência internacional de afetos. O Egito envia duas representantes. A Grécia comparece com sua Helena. A França apresenta uma guerreira. A Itália renascentista oferece um sorriso enigmático. E o Brasil, generoso anfitrião, encarrega-se de reunir todas elas em torno de taças que se erguem não para celebrar conquistas territoriais, mas para brindar à vida.
Eu, evidentemente, assumo a função de embaixador sem pasta. Ou, para ser mais preciso, de diplomata encarregado de garantir que o vinho não falte e que a alegria não seja interrompida por assuntos demasiadamente sérios.
Às vezes, imagino o que diriam os grandes personagens da história se pudessem testemunhar nossas reuniões. Marco Antônio esqueceria as campanhas militares, Páris desistiria de sequestrar Helena, Leonardo pediria outra tela e Aquenáton, fascinado por tanta luminosidade, teria dificuldades para decidir se continuaria adorando o disco solar ou passaria a reverenciar aquelas cinco mulheres.
Há, contudo, um detalhe que me diverte particularmente. Quando regressamos ao convívio dos amigos comuns, depois de uma dessas reuniões regadas a vinho, histórias e gargalhadas, invariavelmente aparece alguém disposto a comentar minha privilegiada condição masculina:
— Bendito és tu, Nobre Seabra, na companhia de belas mulheres!, celebra o companheiro Gegê, o Don Juan do grupo.
Sorrio, não desminto e também não confirmo integralmente. Afinal, a modéstia, quando exercida em excesso, pode ser confundida com ingratidão.
Mas guardo comigo uma convicção que nem os melhores vinhos franceses seriam capazes de alterar. Tudo porque a beleza dessas cinco mulheres não está apenas nos rostos, nos olhos, nos cabelos ou na elegância dos gestos. Está, sobretudo, na lealdade que cultivam, na personalidade que preservam e na cumplicidade que transforma encontros ocasionais em lembranças permanentes.
Cleópatra teve seu império. Helena, sua epopeia. Joana d’Arc, sua coragem. Mona Lisa, seu mistério. Nefertiti, sua eternidade. Íris, Maninha, Mari, Nathy e Tatá têm algo que nenhuma enciclopédia consegue medir. É o poder de tornar a existência mais leve, mais bonita e infinitamente mais interessante.
E eu? Eu tenho o privilégio de ser amigo das cinco. Por isso, se Milton Nascimento me permite guardar amizades no coração e Vinicius de Moraes me empresta a poesia de uma garota que passa, encerro esta crônica com uma pequena heresia matemática. São cinco mulheres, seis taças, incontáveis histórias.
E um homem que, diante de tanta beleza e amizade, já não sabe se está vivendo um capítulo da história universal ou simplesmente desfrutando dos melhores momentos da própria vida. Quem sabe, as duas coisas. Porque, no fundo, meus caros, os impérios desmoronam, as guerras terminam, os monumentos envelhecem e até os deuses acabam esquecidos. Mas uma amizade verdadeira, quando brindada com vinho e temperada com afeto, tem a rara capacidade de sobreviver ao tempo.
E, se me permitem uma última confidência, quando ouço alguém repetir que sou bendito entre aquelas mulheres, penso comigo mesmo. Bendito, sim. Mas não por estar cercado de cinco beldades. Bendito porque, entre tantos homens que passam a vida tentando conquistar o mundo, eu tive a sorte de conquistar o carinho e a amizade de cinco mulheres que valem mais do que todos os reinos da Terra.
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José Seabra é CEO fundador de Notibras


E pensar que se não fosse nosso dominó nada disso teria acontecido. Vida longa ao dominó!!!