A amizade no Face começou não sei quando, depois uma mensagem de parabéns pelo aniversário dela.
A resposta foi, Obrigada, Geraldo. Abraços de Joana, a Louca.
Aquilo o interessou, gostava de História e sabia de cor o poema Vou-me embora pra Pasárgada, de Manuel Bandeira.
– A Louca de Espanha? Rainha e falsa demente? Filha dos Reis Católicos?
– A própria. Gosto da figura, conheces?
– Longa intimidade. Mas já tava veínha, caquética, quando a conheci. Nenhum dente, melhor oral da minha vida.
E por aí foram. Os dois curtiam História (eram formados em e professores de), gostavam de piadas de duplo sentido – por vezes de um sentido só, bem escrachado – e se divertiam juntos. Ela adorou seus poemas eróticos, ele ficou fascinado com seus posts cheios de humor e sensualidade. Um deles, “a Louca é exibida, a Louca namora, a Louca geme, a Louca tem orgasmos múltiplos…”, o fez engolir em seco e propor que, um dia, tacassem fogo no parquinho. A resposta foi imediata:
– Que tal agora? Tens familiaridade com sexo online?
– Tenho!
Mas não tacaram fogo, nem uma brasa, uma fumacinha sequer. Geraldo recebeu um caboclo babacão e desandou a falar sobre materialismo histórico, personagens e processos históricos, o escambau – sobre tudo, menos sobre começar o amorzinho virtual. A ligação era só de áudio, mas quase podia ver os bocejos de tédio da moça. Ele tentou controlar-se, apimentar a conversa, mas não adiantou, a babacagem era das fortes. A certa altura, a Louca o deixou falando sozinho e sumiu – para dormir, sonhar talvez, imaginar-se nos braços de um homem que a fizesse gemer e ter orgasmos múltiplos. Mortificado, Geraldo pensou, “Walter Benjamin escreveu sobre o anjo da História; se tivesse me conhecido, escreveria sobre o babaca da História”.
No dia seguinte, ele soube que Joana tinha insônia das brabas, tomava remédio para dormir e simplesmente apagava de uma hora para outra. Menos mal para o orgulho pisoteado do moço. Só que não houve novos convites para incendiar o parquinho, os dois deslizaram para a zona tépida da amizade, gostosinha, mas sem chamas abrasadoras. Ele admitiu para si mesmo, recorrendo a versos de seu ídolo Chico César, que se derretia feito neve num vulcão, se desmanchava feito nuvem no avião quando falava com ela. Mais ainda, estava encantado com o simples existir/devir da Louca – com seu codinome, sua voz, seu riso prolongado e gostoso, seu sorriso, as coisas que ela fazia, até com as fotos do lugar lindo em que ela morava. Ele mandou um post de duplo sentido, “Um dia vou entrar no teu pedacinho do paraíso”.
Mas, por enquanto – até que os deuses os incitem a tacar fogo no parque de diversões outra vez, sem que ele vacile de novo –, o pedaço do paraíso continua guardado sob a calcinha rendada de Joana, a Louca.
