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A Coragem de Ir Embora de Quem Amamos

Quando nos perguntam qual foi a coisa mais difícil que já fizemos, raramente pensamos em gestos heroicos ou conquistas visíveis. Pensamos em partidas silenciosas. Em decisões tomadas com o coração em conflito. Pensamos no dia em que fomos embora de alguém que amávamos a cada batida do nosso peito não por falta de amor, mas por excesso de lucidez.

Nós aprendemos que amar não é, necessariamente, permanecer. Há amores que não nos salvam, não nos sustentam, não nos acompanham. Há vínculos que, apesar de intensos, nos diminuem. E reconhecer isso exige um tipo específico de coragem: aquela que aceita perder o que se deseja para não perder a si mesma.

Ir embora de quem amamos é um luto sem funeral. Não há aplausos, não há validação social, não há narrativa romântica que dê conta do que se passa por dentro. Nós saímos com o corpo inteiro, mas com o afeto em pedaços. Saímos carregando memórias, planos interrompidos, promessas que nunca chegaram a ser quebradas, apenas abandonadas pelo tempo.

Nós não fomos embora porque deixou de doer. Fomos embora apesar da dor. Porque entendemos que continuar custaria mais caro do que partir. Custaria nossa saúde emocional, nossa dignidade, nossa capacidade de confiar novamente. Há dores que passam; há permanências que adoecem.

Essa escolha nos ensinou algo fundamental: amor não é prova de resistência. Não é suportar tudo, não é insistir até o esgotamento, não é aceitar migalhas em nome de sentimentos profundos. Amor também é saber ir quando ficar exige que nos abandonemos.

Hoje, quando olhamos para trás, não nos orgulhamos da dor nos orgulhamos da escolha. Porque sair de alguém que amávamos com cada batida do coração foi, paradoxalmente, o maior gesto de amor que já fizemos por nós mesmas.

E talvez seja isso que a vida nos ensine, aos poucos e sem anestesia: nem toda despedida é fracasso.

Algumas são maturidade.

Outras são sobrevivência.

E algumas raras e dolorosas são o início de tudo.

Nós seguimos.

Com cicatrizes, sim. Mas inteiras.

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