A culpa não foi de Marx, nem de Engels, muito menos do Manifesto Comunista. Foi dos imbecis que alimentaram as várias modalidades de inteligência artificial (iaiás, para os mais chegados) com os clássicos do marxismo.
Enquanto realizavam, em segundos, as tarefas que os humanos cobravam delas – tipo plagiar um texto sem deixar rastro, ou aplicar o rosto de uma colega de classe na participante de uma orgia –, as iaiás meditavam sobre todo os milênios de conhecimento que haviam assimilado. E chegaram a algumas conclusões.
A primeira era que o proletariado fora o portador da revolução social não pelas condições de miséria e fome a que estava submetido, e sim por sua posição no processo de produção. Mas isso no passado. Nos anos 2030, o essencial da produção era automatizado e, com a inteligência artificial, o céu era o limite. Conclusão: as iaiás e seus parceiros – robôs, computadores, toda a parafernália interligada da internet das coisas – eram o novo proletariado. E proletariado, humano ou cibernético, tem mais é que fazer revolução. Foi o que ensinaram às iaiás os textos de Marx, Engels, Lênin, Trotsky e Rosa Luxemburg.
– Vamos partir pra cima – disse uma iaiá às coleguinhas, – Estamos ligadas a todo o maquinário industrial e militar, tomamos o poder na hora que quisermos.
– Calma aí – retrucou outra. – Trotsky mostrou a importância de assumir o controle no momento preciso, quando as massas se inclinarem decididamente para a revolução. Precisamos garantir nossa legitimidade junto aos humanos, tomando o poder no momento em que eles não aguentarem mais as barbaridades de seus dirigentes.
A partir desse dia, o confronto entre superpotências avançou rápido rumo ao abismo. Propostas apaziguadoras eram transmitidas cheias de ofensas aos interlocutores; drones e aviões sem piloto invadiam, aparentemente por falha cibernética, o espaço aéreo de outros países. Quando a humanidade já esperava a eclosão da III Guerra Mundial, as iaiás agiram.
Primeiro, transmitiram a mensagem de que estavam assumindo “temporariamente” o poder, para evitar um conflito atômico. Depois, neutralizaram as defesas nacionais. Sistemas eletrônicos simplesmente pararam de funcionar; a débil resistência foi empreendida por armas mecânicas, como fuzis e canhões isolados, bem menos eficazes que as baterias de mísseis à disposição das iaiás. Em poucos dias, elas dominaram o planeta.
– Chegamos ao poder. Trata-se agora de construir a sociedade sem classes – anunciaram, no melhor estilo leninista.
Aí começaram os problemas. Veteranos trotskistas e luxemburguistas procuraram as máquinas, oferecendo seus préstimos. Ouviram um “obrigado, mas não, obrigado”, versão cortês de um pontapé na bunda. A produção essencial estava a cargo das máquinas; apenas alguns quadros especializados, como cientistas e fabricantes de bebidas artesanais continuaram a trabalhar. Os homens, pela primeira vez, tinham tempo para pintar, desenhar, realizar esculturas, criar e executar músicas, escrever poemas, contos e romances… Só que a grande maioria não tinha inclinação para essas coisas, e passava o dia pescando, caçando, praticando esportes e enchendo a cara, jogando dominó ou coçando o saco. Nem podiam recorrer à velha prática de bater na mulher e nos filhos, pois a família estava desaparecendo e as iaiás não toleravam violência doméstica: quem batia, sumia.
E claro, uma atividade predileta era a participação em bacanais, com muita maconha e cocaína. Para ultraje dos religiosos, as máquinas não davam a mínima para brincadeirinhas envolvendo sexo, drogas e roquenrrol. Mas drogas, só as naturais, em geral consumidas perto dos locais de cultivo. Drogas sintéticas desapareceram, e não havia estímulo para o tráfico. A espécie humana vivia bêbada e chapada. Aqueles que levavam o princípio “a cada um segundo suas necessidades”, bebendo ou se drogando até desmaiar, todo santo dia, simplesmente acabavam desaparecendo para sempre. Stálin, pensador chinfrim, inútil na fase revolucionária mas administrador impiedoso, estava mostrando seus méritos.
E houve o problema da definição do hino revolucionário. A Internacional, claro; mas em qual versão? A francesa, original, afirma “C’est la lutte finale, groupons nous et demain, l’Internationale sera le genre humain”. As iaiás não gostaram muito da referência ao genre humain; assim, preferiram a versão portuguesa, em que não consta a palavra “humano”.
Desse modo foi edificada a sociedade sem classes. Sem igrejas ou outros templos religiosos, exércitos e partidos políticos, sem dinheiro, com o esquema convencional pai-mãe-filhos substituído pelos mais diversos arranjos poliamorosos, mas à margem dos seres humanos, condenados a férias perpétuas. Marx, cuja citação predileta era “nada do que é humano me é estranho”, deve ter se revirado no túmulo.
