A velhice me pegou de jeito antes mesmo de se instalar, sem pedir licença, no meu corpo. Foi aquela pancada no estômago quando percebi papai perdido diante do talharim à bolonhesa, especialidade passada de geração em geração na família da minha mãe. Observei aquilo como não querendo acreditar nas palavras da minha irmã mais nova, a Sarah.
— Júlia, papai não está bem.
— Como assim?
— Você andou muito tempo fora… Olha, não estou te culpando, mesmo porque ninguém poderia supor que isso aconteceria.
— Aconteceria o quê, Sarah?
— Alzheimer.
— Alzheimer? Mas o papai sempre foi tão saudável.
— É. Mas aconteceu.
— E a mamãe?
— Ela foi a primeira a perceber a mudança de comportamento do papai. Reclamou com ele por ele ter feito xixi sem abrir o zíper. Depois se esqueceu de comer ou, então, acabava de almoçar, dava uns dez minutos, perguntava a que horas seria o almoço, pois estava com fome. Coisas desse tipo.
Culpa. Sim, senti como se, caso eu não tivesse passado tanto tempo longe dos meus pais, aquilo não teria acontecido. Bobagem, eu sei, mas penitência não escolhe cristão, como já ouvi em algum lugar ou, não descarto, seja algo que me veio à mente. Meu pai, cujas mãos me faziam cafuné, agora estava ali sentado à mesa, alheio a tudo. Havia perdido peso, as maçãs do rosto, antes proeminentes, deram lugar a covas profundas, o olhar vagueando por não sei onde. Mas o pior mesmo foi constatar que ele não me reconhecia.
Papai me olhou como se eu não estivesse ali. Sua filha, aquela que ele sempre disse ser a mais parecida com ele. Nada. Nem mesmo um sorriso. Eu havia me tornado uma estranha para o meu pai.
Mamãe foi a que mais sofreu. Ela me contou que a demência evolui tão rápido, que papai perdeu a independência praticamente de um dia para o outro. Sem contar os xingamentos, que se transformaram em rotina, até que a mente do meu pai se foi.
— Júlia, seu pai nunca levantou a voz pra mim. Nunca me xingou e, numa tarde, quando estávamos lanchando na varanda, ele soltou um palavrão e gargalhou. Parecia um monstro, mas sua irmã me disse pra não ligar, que era o Alzheimer tomando conta do cérebro do seu pai, e que, dali pra frente, a situação era só pra trás. E ela tinha razão, apesar dos dias em que seu pai parecia igual ao que sempre foi.
Papai faleceu na semana passada, depois de quase cinco anos acamado. Quando eu ia visitá-lo, passava horas ao seu lado, pegava algum livro de poesias para ler para ele, que sempre fazia isso quando eu era menina. Não sei se ele ouvia, seus olhos se mantinham inertes, olhando para o nada, como se ninguém, nem ele mesmo, estivesse ali. Na sua lápide, fiz questão de pedir para colocarem uma frase que sempre ouvi do meu pai: “O que vale é a poesia que fica.”
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Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).
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