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A defesa dos animais é a defesa da vida

Nos últimos dias, o Brasil inteiro foi tomado por um sentimento de indignação diante do assassinato brutal do cachorro Orelha, em Santa Catarina. As imagens e relatos do crime, marcado por requintes de crueldade, chocaram e mobilizaram milhares de pessoas. No entanto, como quase sempre acontece quando um caso ganha grande repercussão, surgiram vozes tentando relativizar a comoção: “era apenas um cachorro”, disseram alguns, comparando a revolta com a falta de mobilização diante de crimes cometidos contra seres humanos.

Esse tipo de argumento cria uma falsa oposição que não ajuda em nada a enfrentar a violência. Defender justiça para os animais não significa minimizar a dor das vítimas humanas. Uma luta não anula a outra. É perfeitamente possível e necessário exigir penas mais duras para feminicidas, para agressores de crianças e idosos, e também para quem tortura e mata animais. Todas essas causas partem do mesmo princípio: a proteção da vida e a rejeição à brutalidade.

A violência não surge isolada. Ela é expressão de uma cultura que banaliza o sofrimento do outro, sobretudo quando esse outro é mais frágil. Por isso, a sociedade precisa aprender a proteger quem não pode se defender. E isso inclui, sim, os animais. Eles dependem inteiramente dos humanos para sobreviver, não têm voz política, não podem recorrer à justiça e são vítimas frequentes de abusos cometidos na sombra da impunidade.

Dizer que “é só um cachorro” é ignorar que a crueldade contra animais é um sinal alarmante de desumanização. Quem é capaz de torturar um ser indefeso demonstra desprezo pelos limites morais mais básicos. Não por acaso, diversos estudos apontam a relação entre maus-tratos a animais e outras formas de violência, inclusive contra pessoas.

A comoção nacional pelo caso do cachorro Orelha não revela um desvio de prioridades, mas um desejo legítimo de justiça. Ela mostra que há, na sociedade, uma sensibilidade crescente para com os vulneráveis, sejam eles mulheres vítimas de feminicídio, crianças, idosos ou animais. O desafio é transformar essa indignação em políticas públicas, leis mais rigorosas e uma cultura que não tolere a crueldade sob nenhuma de suas formas.

Proteger os animais é, no fundo, reafirmar um valor essencial: a vida importa, especialmente quando não pode se defender sozinha. E essa defesa não divide a sociedade, ela a humaniza.

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