Nós aprendemos cedo ou tarde demais que a forma como tratamos os outros nunca é neutra. A simpatia, muitas vezes confundida com ingenuidade, nasce em nós como decisão consciente. Não é submissão, não é fraqueza, não é performance social. É memória. É experiência. É cicatriz.
Nós sabemos exatamente o que significa ser tratados como se não valêssemos nada, mesmo sem termos cometido erro algum. Sabemos o peso do olhar que ignora, da palavra atravessada, do silêncio que humilha. Sabemos como é existir num espaço onde a dignidade é retirada aos poucos, como se fosse um favor e não um direito. E é justamente por sabermos disso que escolhemos não reproduzir.
Ser simpáticas com todos não é fingimento, é ética. É recusa em perpetuar a violência cotidiana que se disfarça de grosseria “sincera”, de franqueza agressiva, de superioridade moral. Nós entendemos que o mundo já é duro demais para que sejamos mais uma camada de aspereza na vida de alguém que talvez esteja sobrevivendo em silêncio.
A simpatia, em nós, não nasce da ausência de dor, mas da convivência íntima com ela. É porque já fomos tratadas como lixo que escolhemos oferecer humanidade. É porque conhecemos o fundo do poço que não empurramos ninguém para lá. Nossa gentileza não é desinformada ela é radicalmente consciente.
E isso não significa aceitar abusos, silenciar injustiças ou tolerar desrespeito. Pelo contrário. Significa que sabemos separar firmeza de crueldade, limite de violência, maturidade de frieza. Nós aprendemos que é possível ser fortes sem sermos brutais, e inteiras sem nos tornarmos indiferentes.
Num mundo que normaliza a desumanização, escolher tratar bem é um ato político. É dizer, sem discurso inflamado, que ainda acreditamos em algum tipo de convivência possível. Que a dor não nos embruteceu. Que a experiência não nos tornou cínicas. Que seguimos apesar de tudo.
No fim, nós continuamos simpáticas não porque esquecemos o que nos fizeram, mas porque lembramos exatamente de como doeu.
E escolhemos ser diferentes.
