Ir embora vai doer por um tempo. Nós sabemos. Existe uma dor imediata, quase física, que acompanha as despedidas: o vazio da rotina que se quebra, o silêncio onde antes havia promessa, a sensação de fracasso que tentam nos impor quando escolhemos sair. Ir embora desorganiza, desestabiliza, exige coragem. Mas é uma dor que se move, que atravessa, que não se instala para sempre.
Ficar onde não nos valorizam, ao contrário, dói todos os dias. É uma dor contínua, silenciosa, corrosiva. Uma dor que se infiltra na autoestima, que nos faz duvidar da própria percepção, que nos ensina a normalizar o desrespeito. Simone de Beauvoir já nos alertava: o hábito da opressão é fazer com que a injustiça pareça natural. Quando ficamos tempo demais onde não somos reconhecidas, começamos a achar que pedir o mínimo é exagero.
Nós fomos ensinadas a suportar. A insistir. A “tentar mais um pouco”. bell hooks escreveu que muitas mulheres confundem amor com permanência, quando o amor verdadeiro jamais exige a anulação de quem somos. Permanecer onde não há reciprocidade não é maturidade emocional, é treino de abandono de si.
Ir embora dói porque rompe expectativas, inclusive as nossas. Mas ficar onde não há cuidado nos adoece lentamente. O corpo sente antes da consciência: ansiedade, cansaço crônico, tristeza sem nome. Byung-Chul Han chama isso de violência sistêmica silenciosa aquela que não grita, mas esgota.
Nós aprendemos, com o tempo, que nem toda dor ensina. Algumas apenas consomem. A dor de ir embora ensina limites, autonomia, dignidade. A dor de ficar ensina submissão. E chega um momento em que escolher partir não é mais um ato impulsivo, mas uma decisão ética consigo mesmas.
Judith Butler nos lembra que toda vida precisa de condições para florescer. Onde não há reconhecimento, não há possibilidade real de crescimento. Não é drama sair de lugares que nos diminuem é sobrevivência.
Nós não romantizamos a partida. Sabemos que ela machuca. Mas também sabemos que a permanência em ambientes de desvalorização nos custa caro demais. Ir embora dói por um tempo. Ficar dói sempre. E aprender a diferenciar essas dores é um dos maiores gestos de amadurecimento que podemos fazer.
Se este texto chegar a alguém em dúvida, paralisada entre ir e ficar, deixamos um lembrete coletivo: a dor que passa pode abrir caminhos. A dor que permanece só fecha futuros. Escolher-se não elimina o sofrimento, mas impede que ele vire morada.
E isso, por si só, já é um ato profundo de cuidado.
