A MÁQUINA RACIONAL DE COMOVER
A POESIA LAPIDADA
João Cabral de Melo Neto, “o poeta:engenheiro”, é reconhecido como um dos maiores escritores e intelectuais da literatura brasileira e mundial.
Nascido em Recife, nos braços de uma família pertencente à elite açucareira, repleta de bacharéis e advogados, João Cabral passou a infância nas paisagens de engenhos das cidades de São Lourenço da Mata e Moreno.
Antes de se entregar à poesia, sonhou com o futebol profissional e foi um craque juvenil. No final da adolescência, frequentou a vida intelectual do Recife e depois partiu para o Rio de Janeiro, onde conheceu Carlos Drummond de Andrade, que se tornaria seu grande amigo e referência. Foi lá também que publicou o primeiro livro, A pedra do sono, em 1942.
João Cabral de Melo Neto fez do estudo a preparação para a carreira como diplomata, mas jamais perdeu de vista a imensa vocação para lidar e polir a pedra da palavra.
POESIA SINGULAR E INOVADORA
João Cabral de Melo Neto surgiu como poeta nos anos 1940, sendo usualmente enquadrado no que ficou conhecido como a Geração de 45 ou a terceira geração do Modernismo.
A dicção poética seca levou parte da crítica a caracterizar João Cabral como um construtivista, um sujeito que racionalizou a construção poética.
Para alguns, sua poesia não seria apenas fria, mas mineral, tomando por referência a pedra, imagem central na obra do pernambucano.
João Cabral de Melo Neto foi um grande artífice, um exímio poeta no sentido de lidar com as imagens e ritmos e criar coisas novas.
Essa lapidação da palavra, entretanto, não impediu que sua poesia também tivesse emoção. Era uma “máquina de comover” com uma poesia feita racionalmente. Essa abordagem inovadora do que é a poesia seria determinante para as gerações seguintes.
Ele influenciou a vanguarda poética dos anos 1950, que quis radicalizar a ideia do poema como “artefato a ser construído radicalmente”. A imagem do poeta-engenheiro foi decisiva para a poesia concreta.
João Cabral encerra a carreira diplomática no início dos anos 1990, depois de se tornar cônsul da cidade do Porto, em Portugal.
Nos últimos dez anos de vida, uma cegueira progressiva o impediu de ler e escrever e perpassou os seus dias acompanhada de profunda depressão.
João Cabral de Melo Neto morreu em 1999, no Rio de Janeiro. (Gilberto Motta)
A FALA DE JOAQUIM EM “OS TRÊS MAL AMADOS” EM JOÃO CABRAL DE MELO NETO
O livro “Os três mal-amados” dialoga com o poema “Quadrilha”, de Carlos Drummond de Andrade, em que o poeta aborda os desencontros do amor, brincando com a ideia de troca de casais que existe na dança de quadrilhas.
João Cabral de Melo Neto escreve, em 1943, um livro que alude aos desencontros amorosos entre casais. O poeta criou os personagens João, Raimundo e Joaquim, que amam mulheres sem que sejam correspondidos.
No poema, cada um deles tem uma fala. O trecho mais famoso é a fala de Joaquim, transcrito a seguir:
“O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto, mas que parecia uma usina.
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.
O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.
O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.
O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.
O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.”*
*(Trecho de Os Três Mal-Amados (1943), João Cabral de Melo Neto) In Leituras Livres
Como pode-se ler, o poeta utiliza-se de substantivos o que sugere concretude e solidez para descrever sua antítese do que é o universo dos sentimentos.
Nesse texto, João Cabral de Melo Neto narra de maneira linear fatos reveladores da concretude da vida.
A linearidade é construída por orações coordenadas e, em sua maioria, iniciadas por sujeito agente “o amor” (artigo definido e substantivo). Nas vezes em que o sujeito é oculto, também se refere a ” o amor”.
Nessa óptica de linearidade, a passagem do tempo é vista como algo angustiante e devorador: algo que come.
Na crônica, essa força devoradora da existência é denominada ” o amor”. A pessoa que vivencia o amor permanece fora da construção da narrativa de maneira que é o amor que age sobre tudo o que é mencionado.
O amor comparece como algo que consome a vida biológica e social. É capaz de alterar as aparências. Interfere nos cuidados com a saúde. Destrói os livros, os frutos das leituras e a inspiração para a escrita. Destrói os hábitos e os pertences relativos ao cotidiano. Bloqueia tentativas de superação e memórias de infância e de adolescência. Destrói as paisagens do passado e os planos futuros. É angústia e medo da morte.
Tal concepção de “o amor” suscita algumas questões: 1- No texto, ” o amor” definido é oposto ao amor que comparece na estética do Romantismo? Trata-se de rejeitar a sentimentalidade, a irracionalidade ou o verso subjetivo? 2- Quando menciona “paz e guerra” ( invertendo o título de “Guerra e paz” de autoria de Tolstói), refere à teoria fatalista da História, onde o livre-arbítrio conta pouco e todos os acontecimentos obedecem a um determinismo histórico irrefutável? 3- Em que medida o gênero textual usado (prosa poética) abarca elementos da crônica?
Concluímos por ressaltar que o “eu lírico” descreve suas paixões como devoradoras do nome, da identidade e da imagem do apaixonado não correspondido.
(Edna Domenica)
……………………………..
*Edna Domenica é cronista, poeta e pesquisadora da arte literária. Dedica-se ao PRCDC – “Programa de Recuperação Cognitiva e Dessensibilização de Cromofobia” (que tem parceria com a Igreja “Fora da ficção não há salvação”). Trata-se de um projeto de leituras dos autores: João Cabral de Melo Neto, Graciliano Ramos, Ariano Suassuna, Chico Buarque de Holanda, Guimarães Rosa, Mia Couto, Conceição Evaristo. Para os casos mais graves de fobia ao vermelho: Marx e Engels.
*Gilberto Motta é escritor, jornalista, professor/pesquisador.
**Referência bibliográfica na pesquisa: João Cabral de Melo Neto – Uma biografia, livro escrito por Ivan Marques, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, 2016.
