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A força que nasce quando alguém fica

Nós fomos ensinadas a admirar a força solitária. A celebrar quem “aguenta tudo”, quem não pede ajuda, quem segue mesmo ferida. Transformamos a sobrevivência em virtude moral e esquecemos que ninguém deveria aprender a ser forte sozinho. A solidão foi romantizada como maturidade, quando muitas vezes é apenas abandono normalizado.

Há uma violência silenciosa em dizer a alguém que ela precisa dar conta sozinha. Como se pedir colo fosse fraqueza. Como se precisar de alguém fosse falha de caráter. A modernidade fez da autonomia um fetiche e da dependência um tabu, ignorando que todo ser humano é, antes de tudo, relacional.

Judith Butler nos lembra que a vida é constitutivamente vulnerável. Nós existimos expostas, atravessadas umas pelas outras. Não há sujeito totalmente autônomo. Há interdependência. Há corpos que só continuam porque outros corpos ficaram. Fingir o contrário é negar a própria condição humana.

O discurso da força individual também serve a um sistema que lucra com o esgotamento. Byung-Chul Han aponta que vivemos numa sociedade que transforma o cansaço em responsabilidade pessoal. Se alguém adoece, é porque não foi resiliente o suficiente. Se cai, é porque não se esforçou. Assim, o abandono deixa de ser problema coletivo e vira destino individual.

Mas a vida real desmente essa lógica.

Nós sabemos, porque sentimos no corpo, que às vezes o maior alívio não é uma solução, nem um conselho, nem uma superação heroica. Às vezes, o que salva é alguém que escolhe ficar. Alguém que não tenta consertar, nem acelerar o processo, nem minimizar a dor. Alguém que sustenta a presença quando tudo em nós quer desistir.

Hannah Arendt dizia que a ação humana só faz sentido no espaço entre pessoas. Talvez a resistência também. Ninguém se reergue sozinho no máximo, se endurece. E endurecer não é vencer; é sobreviver amputada de partes sensíveis.

Ser forte o tempo todo cobra um preço alto demais. Cobra a capacidade de descansar, de confiar, de se apoiar. Cobra a humanidade. Por isso, precisamos dizer sem vergonha: aprender a ser forte sozinha não é virtude absoluta. Muitas vezes, é cicatriz.

O verdadeiro gesto radical, num mundo que nos quer isoladas, é permanecer. É escolher ficar quando não há espetáculo, quando não há retorno, quando não há promessa de recompensa. Ficar é político. Ficar é ético. Ficar é uma forma de amor.

E talvez seja isso que nos salve: não a força individual que nos separa, mas a presença que nos sustenta. Porque ninguém deveria atravessar a vida como se fosse uma guerra solitária. E ninguém deveria precisar provar força quando tudo o que precisa é companhia.

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