Eu tinha 18 anos, Elisa também. Na verdade, era dois meses mais velha do que eu, nascera em abril, eu em junho. Eu cursava o primeiro ano da faculdade de Direito, ela terminava o colegial, havia repetido um ano. A gente se conhecia do Liceu Nilo Peçanha, flertava de leve mas nunca chegou a se pegar: não faltava carne jovem para um test drive, nem pra mim, muito menos pra ela. E a fila andava rápido, que os hormônios dos adolescentes de todos os gêneros fervilham, a reposição dos modelos era acelerada.
Morávamos em Niterói, bem perto um do outro, a uma quadra da praia de Icaraí, ela num edifício da Moreira César, eu numa rua transversal, a Belisário Augusto. Tínhamos turmas diferentes, talvez por isso nunca nos havíamos encontrado na praia (intelectual não pisa na areia, intelectual bebe) nem nos barzinhos da orla marítima. Nosso espaço era o Liceu, onde ela estudava e eu havia estudado. E aquele bendito ônibus.
Eu voltava da faculdade no Rio, tarde da noite. Entrei num ônibus lotado e a vi, um pouco à frente. Estava linda, de minissaia e uma blusinha decotada, que revelava urbi et orbi seios magníficos. Quanto a mim, estava cansado, suado, mas devo ter enlouquecido de leve, incorporado algum sátiro ou exu sarradô, algo assim. Fui avançando pelo mar de gente até estar atrás dela, meu corpo colado no dela, e a encoxei.
Ela fugiu do contato, mas só um pouco; vi que relaxou e decidiu aproveitar aquela loucura. Cresci em seu traseiro e senti que ela rebolava de leve. Minha encoxada não era acintosa, taradosa, das que são pintadas com exagero de detalhes em textos pornôs; poderia passar por um contato inevitável num coletivo apinhado, se o eventual observador não percebesse nossa respiração pesada, a minha e a dela.
Elisa desceu no ponto mais próximo de sua casa. Continuei no ônibus, torcendo pra minha ereção baixar logo, e consegui sair dois pontos adiante. Fui caminhando devagar, pela calçada junto à praia, pensando naquela loucura deliciosa, até pegar a Belisário Augusto. Não sabia se a coisa teria continuidade, mas tinha certeza de que a encoxada permaneceria para sempre registrada em meus neurônios.
E não houve mesmo continuidade. Três anos depois, porém, encontramo-nos por acaso em uma festa, na casa de um amigo comum. Conversamos – sem uma única palavra sobre o sarro no busão –, flertamos, dançamos, nos beijamos. E fomos embora juntos para meu apartamento, que estava vazio, por um especial favor dos deuses meus pais haviam viajado para Friburgo.
Ela queria, eu queria, porém havia o episódio constrangedor de antes, silenciado; provavelmente seria uma transa morna, um casinho de uma só noite. Foi então que Elisa teve a ideia que elevou o tesão à enésima potência. Levantou-se do sofá onde havíamos sentado, apoiou-se no espaldar de uma cadeira, empinou a bundinha e perguntou-me com voz sedutora, os olhos brilhando de excitação:
– Você não vai entrar no ônibus?
Dei um pulo e avancei, pisando pés invisíveis, dando cotoveladas em pessoas invisíveis, murmurando pedidos de desculpas a elas, até colar o corpo no de Elisa. Minha vez de falar:
– O busão tá lotado, né? Mas isso é ótimo para dar uma encoxada em uma mulher gostosa que nem você.
– Fala baixo, os outros passageiros podem ouvir. Você me acha gostosa? – e rebolava, sem pudor algum.
– Bonita e gostosa, uma tigresa. E eles vão gostar do que vão ver. E aprender como se faz.
Cada ato subsequente foi anunciado aos passageiros invisíveis, a começar pela mão invasora sob o vestido e as carícias em suas coxas e sua bundinha. Veio a confissão:
– Você é bem taradinho, né? Que bom, sempre quis fazer num ônibus! Olhe, aquela senhora não tira os olhos da gente e está se tocando, daqui a pouco tira a roupa…
Era a dica para eu ir em frente. Nem pensar em despi-la, poderia quebrar o clima. Abaixei as calças e a cueca, afastei a calcinha dela para o lado e fui com tudo. Ela deu um suspiro de fim da espera.
A transa foi rápida, estávamos os dois demasiado excitados para prolongá-la. Depois fomos pra cama, as pernas bambas, e houve outras, em local mais confortável, mais que satisfatórias. Mas a volúpia seguiu viagem naquele ônibus. Nunca mais fizemos, raras vezes a vi depois disso, não fui convidado para seu casamento.
