Fim dos anos 80. A gente vivia aquela vibe “Cheia de Charme”, querendo usar roupas mais ousadas e, claro, eu decidi que precisava dar uma engrossada nas pernas. O destino? A academia.
Eu nunca tinha pisado num lugar daqueles, mas quando fui, fui com “sangue nos olhos”. Fiz três horas de exercício direto: bicicleta, musculação e uma montanha de abdominais.
Saí de lá me sentindo a própria Mulher-Maravilha, pronta para desfilar pelo Méier com tudo em cima.
Ao chegar em casa, meu irmão, nove anos mais novo e na maior pureza de criança, veio logo me interrogar: “Onde você estava? O que você foi fazer?”.
Eu, toda orgulhosa, respondi: “Fui fazer ginástica!”.
Ele ficou curioso. Na escola dele, se tinha educação física, era o básico do básico. Ele queria saber o que era aquela tal “ginástica”. E eu, numa mistura de empolgação e falta de noção, resolvi que ia mostrar para ele tudo o que eu tinha aprendido.
— Vem cá! Vou te ensinar — eu disse, já me sentindo a mestre do fitness.
O coitadinho, feliz da vida por estar recebendo atenção da irmã mais velha, topou na hora. O que se seguiu foi um verdadeiro campo de treinamento militar na sala de casa.
— Bora! Abdominal! Estica para cá! Puxa para lá! Mais dez!
E ele, com aquele sorriso de quem está brincando, fazia tudo. Se eu mandava dobrar, ele dobrava; se eu mandava esticar, ele esticava. Mal sabia ele que estava assinando um contrato temporário de invalidez.
A conta chegou na manhã seguinte. Eu acordei dolorida, claro, mas meu irmão… ah, o meu irmão simplesmente não se mexia. O “ruço” que baixou nele não foi névoa, foi dor mesmo!
O coitado travou completamente. Cada “dobrinha” do corpo dele gritava. Ele não conseguia sentar, não conseguia levantar e muito menos brincar. Passou dois dias de cama, à base de remédio para dor, olhando para o teto sem poder mover um músculo.
Eu, que só queria ser uma irmã legal e mostrar as novidades, acabei virando a vilã da fisiologia infantil por acidente. Até hoje, quando lembro, me dá um aperto no peito, mas na época, quem diria que três horas de academia acumuladas em 30 minutos de “aula caseira” poderiam paralisar uma criança?
Fica a lição: nunca aceite dicas de exercícios de quem acabou de fazer a primeira aula de ginástica!
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Denise Marchi, carioca, é professora de português e italiano e gestora ambiental em formação. É irmã do nosso editor Daniel Marchi, sua primeira e única vítima numa aula de ginástica.
